"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

I am not but I am

Minha foto
Rio de Janeiro, RJ, Brazil

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Caroles

Ela é para mim como esses dias que amanhecem nublados e que em torno do meio-dia surgem, timidamente, leves raios de sol, desses que arrepiam o corpo inteiro. São raios de sol bem leves, num geral ela é como um dia nublado com neblina. Neblina sempre me alegra e dá leveza no espírito.

Eu adorava quando passava de manhã bem cedo pelo Elevado da Perimetral em dias nublados e ficava como que hipnotizada vendo as montanhas ao longe envoltas em neblina. É uma beleza tão fina, tão sutil, tão doce... Sinto saudade.

Ela é como esses dias. Uma beleza rara, tímida e doce. Rara no jeito de ser. Tímida no falar e em se mostrar, como os raios de sol que aparecem em dias assim. E doce. Doce na voz, no falar, no beijo, no cheiro, no riso, no olhar. Doce no íntimo. Doce por fora. Doce como a neblina que me toca no espírito e me encanta e me enlaça numa fina e norteadora sensação de liberdade e leveza.


(Tenho muito a aprender).



sábado, 29 de junho de 2013

Elogios outonais

Gosto de adjetivos estigmatizados, gosto de atos polêmicos e incestuosos, e atos puros também - como beijo no rosto, olhos que sorriem, risadas estalidantes...
Dentre tanta pureza, descobri ultimamente algo que me deixa em êxtase, até mesmo feliz, se é que me entende... Descobri que gosto de elogios, mas não qualquer elogio. Gosto de elogios frágeis como as folhas no outono.
Sim, é meio triste, visto que no outono as folhas ressecam e caem. Entretanto, não quero e nem estou caracterizando os elogios aos quais me refiro como sendo impessoais, às vezes um tanto contundentes, mas jamais impessoais. Quero dizer que são elogios inesperados... Por isso são como as folhas no outono. Sabe-se que numa hora qualquer eles, os elogios, assim como as folhas no outono que estão prestes a cair - e por isso são frágeis -, também cairão, hão de ser ditos.


"— Não soube compreender coisa alguma! Deveria tê-la julgado por seus atos, não pelas palavras. Ela exalava perfume e me alegrava... Não podia jamais tê-la abandonado. Deveria ter percebido sua ternura por trás daquelas tolas mentiras. As flores são tão contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la."
(Antoine de Saint-Exupéry - O Pequeno Príncipe)

sábado, 2 de março de 2013

Quiçá eu quero ver o 0C0

 Pois então revelarei-lhes o que parecemos: parecemos homenzinhos azuis à procura de uma gruta em que nos escondermos. Não adianta negar, bem lá no âmago sabemos que todos nós temos um quê de eremita. Cada um sabe esse detalhe inevitável de si mesmo, e, como já disse, não adianta negar.
 Meses... O que são meses? São meus pés saindo pelas mãos. São minha paciência se dissipando grão-a-grão bem diante do meu nariz. São meus cabelos caindo. São meus nervos à flor da pele. Meses são o fim iminente de todos os dias de nossas vidas. Como os dentes que caem na velhice e as articulações que já não obedecem mais.
 Esse mundo está definhando e todos nós estamos indo pelo mesmo ralo imundo e decrépito. Lógico, né... Nós cavamos esse ralo e não paramos jamais de cavar cada vez mais fundo, e tudo isso só porque nós queremos ver o OCO, o vazio alusivo a que nossas mentes tão inversamente sãs cismam em abraçar. Esse buraco pelo qual damos nossas vidas como se de fato valesse um cruzeiro é a desgraça pela qual procuramos pelo puro prazer de confundir e chantagear a mente do outro que se enfraquece. É um buraco que cada um guarda dentro de si... De si pra si. E de quando em vez tenta, impiedosamente, arremessá-lo para dentro de outrem para que este se acabe de uma vez. Como se tal ato fosse digníssimo.
 A cama e as portas rangem, não obstante a noite não promete nada. Talvez a vida também não. Quiçá eu também não prometa nada, ou prometa e não cumpra... E a vida sempre continua. Ou, como dizem os filmes hollywoodianos - e a música de mesmo título do inesquecível e amabilíssimo Freddie Mercury, vocalista da banda inglesa de rock, Queen -, "the show must go on".
 Mas isso já não é nenhuma novidade, não é mesmo compañeros? Promessa é uma coisa que soa tão... Era Medieval, sei lá. É uma ideia muito bonitinha, mas ainda assim uma bela utopia. Assim como democracia, poderes místicos vindos de deuses de uma outra dimensão, Amor e, sei lá, vaca de soja.
 Vai ver esse é um dos motivos pelos quais eu gosto muito mais dos meus livros do que de gente. Essa gente careta e debilitada que pensa que tudo é purpurina e palco. Do afeto emocional contorcido e do teatral megalomaníaco já estou farta. Sei que ao menos por um tempo, e esse tempo pode durar tanto por meses como por horas, poderei dizer que é bom pôr os pés, diga-se de passagem, muito bem postos, no chão. Talvez até fincá-los!


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Enorme Zepelim

  Gosto de falar com as paredes. Nem sempre, mas gosto. O outro é sincronicamente interessante e estranho. Quem me vê refletida no espelho? O outro ou eu? Talvez eu tenha predileção a tomar caminhos tortuosos.
  Fruto proibido de olhos semicerrados.
  Tinta colorida em luz negra.
  Músicas e bebidas e cigarros.
  The Cure... Não me cure. Minha enfermidade, minha paz avulsa de ponta-cabeça.
  Taquicardias mundanas, desejosas de atritos incoerentes e vindos do enorme zepelim.









“Tenho problemas com o rosto humano. Acho muito difícil olhar para ele. Encontro a soma total da vida de cada pessoa escrita nele e é uma visão terrível. Quando se vêm milhares de rostos em um só dia, é cansativo dos pés à cabeça. E por todas as entranhas. É por isso que admiro os bilheteiros do hipódromo. E a maioria é bem legal. Acho que os anos que passaram lidando com a humanidade lhes deram uma certa visão. Por exemplo, sabem que a maior parte da raça humana é uma grande merda. Eu poderia ficar em casa. Poderia trancar a porta e brincar com tintas ou qualquer coisa assim. Mas, de alguma forma, tenho que sair, e ter a certeza que toda a humanidade é uma grande merda. Como se fosse mudar…” (Charles Bukowski)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Misto de gauche e licença poética

  Quando fecho os olhos sinto como se estivesse bêbada. Como é sair de si, flutuar pra fora do próprio corpo, ficar suspensa como que perdida no ar contemplando a si mesma meio viva, meio morta, estirada no tapete colorido com os pés nus tocando o piso frio de tábua corrida? Ser hippie parece tão cool. Eu não aconteci em Woodstock... Nem você. Mas "você", que eu quero dizer, sou eu, minha mente, meus pensamentos um tanto embaraçados feito os meus fios de cabelo.
  E você, o que você quer? A festa acabou, você acabou, o dia raiou, a noite findou. "Ou". Por que sou tão in? Preciso ser out, completamente out. Quero outs. Também quero sins. Não estou dando uma de Caio, imagina... Quero paz e quero guerra. Mas não quero qualquer paz, tampouco qualquer guerra. Quero a paz de espírito dos hippies dos anos 60 - a que eu suponho que tivessem, visto que é a sensação que me passam -, quero a guerra dos loucos. Eu sou louca. Indiscretamente assumo minha loucura sã. Discretamente tento controlá-la, mas só às vezes, bem às vezes, quase nunca. Não pretendo obter êxito quanto à essa proeza, de qualquer modo. Pra que controlar minhas loucuras se posso devanear milênios sob seus efeitos translúcidos, magníficos, magnânimos, mágicos, monstruosos, sediciosos... "osos"? Isso tudo é tão in. Eu sou in. Eu sou in e minha loucura não cabe em mim. Minha loucura necessita expandir-se, vazar para além de mim e contagiar.
  Dormir sem calcinha é ato digno. Pelada, mais ainda. Digno também é viver o hoje sem ficar cuspindo no passado e tentando adivinhar a cara do futuro. Eu não rascunho os meus dias. Eu engulo o papier-mâché. Não gosto de liquid paper. Saudável mesmo é viver cometendo erros proveitosos. Saudável é escutar sandices enquanto a brisa do mar beija o rosto. Não queria isso, mas pensei em shimbalaiê por um instante... "Você não me ensinou a te esquecer", Caetano me entenderia. Freud, não.
  Me adivinho no compasso dos segundos, nas clareiras do tempo zero, me adivinho no som que emudece a rotina cantilena. Diria que também "te" adivinho, mas estou devaneando comigo mesma... Queria dias mais longos, tristezas mais curtas, pores-do-sol em comprimidos. Queria amor enlatado. Papel rabiscado, fracasso esmagado. Rimas sofisticadas. Não faço sentido.
  Me sussurram mordidas e ecôo Júpiter. Madrugadas voluptuosas ou ingênuas, tanto faz. José é in, assim como eu. "E agora, José?". Sei que não quero terminar como José, seja José de Carlos, seja José de ninguém como se fosse João, mas que na verdade não é, e sim apenas outro pobre diabo esquecido. Lembrei: eu não termino. Sou infindável... Dinheiro na mão é vendaval, pois bem, eu também.
  É me definindo no indiscutível que vou me recompondo ao zero grau de libra em itálico. Se eu fosse um país... Mas isso jamais me ocorreu. Se eu fosse um poema... Mas posso ser tantos que não cabe a mim delimitar... Ou cabe? Sei que sou poesia de cego... Não importa, não "posso ser" tantos poemas, pois "sou", de fato sou, em negrito e sublinhado, tantos poemas quantos forem possíveis de se imaginar. Eu sou o ópio, o ópio do povo. Mentira. Marx, futebol e catolicismo já ocupam esse espaço toptoptop de linha no pódio dos vencedores que não vencem nunca porra nenhuma. A verdade é que eu não caibo em mim.
  Mas continuo caminhando por aí - caminhando, sim, porque vagando daria outros ares, que não indizíveis, porém, errôneos -, me perdendo nas tolices de todos-os-dias... Amém. Continuo por aí, errando obras-primas, cagando cheiroso, desconstruindo rimas, tomando banho de sol, de lua, de mar, até de neblina, pensando breguices, distribuindo patadas, presenteando com flores porque pessoas também morrem, vale lembrar. E continuo por aí, atuando em palcos improvisados por sobre areia. E caminho contra o vento, nada no bolso ou nas mãos... Se tenho amores vãos? Tive. Tive um. Mas já disse que não se deve viver cuspindo no passado, portanto, viremos a página. Tem outra coisa, também vivo amando. Não é a mando do capeta, apesar de vez e outra parecer, é um vivo amando do tipo amando sempre, sempre amando, é um amando ora apaixonado, ora embrutecido... É um Amor dos loucos e chafurdados na merda lodaçal das inseguranças infrutíferas, mas e daí, é Amor, e antes o Amor dos loucos e desvairados que dos fracos e oprimidos, dos medíocres bastardos sem perspectivas delirantes, que das criaturas agourentas e hediondas que nunca, jamais, em hipótese alguma suspiraram Saturno - ou suspiram. Tenho dito. E comprovado. Sério, com selo do INMETRO e tudo. Mas enfim, amando e vivendo. Amando e amando... Aliás, há amando e a-mandos.
  Risos, risos, beijo, beijo.






"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida." (Carlos Drummond de Andrade - Poema de Sete Faces - Antologia Poética)

"- Como é que você sabe?
[...]
- Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
- Eu não sei nada.
- Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
- Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
- Ninguém compreende.
- Às vezes sim. Eu te ensino.
- Difícil, [...]" (Caio Fernando Abreu - O dia que Júpiter encontrou Saturno - Morangos Mofados)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Roda Viva

  Ai de mim, não gostar de subversão, das subjetividades do momento, de memória. Também gosto de pureza, da inocência irrefutável de certas criaturas. Queria ser direta, mas a prolixidade não permite. Ah, e os conformismos... Malditos sejam.
  Seu cabelo curto e enegrecido me cativou. E o seu, cabelo comprido e ruivo, também. Sei lá, acho que só muda a embalagem, o resto é a mesma coisa. Você, ela, eu... Ironias dessa imensurável Roda Viva. Roda Viva. Roda Viva. Como isso deve soar em latim? Roda Viva. Perdão, não sei latim. Então por que pensar em como deve soar nessa língua? Não sei, curiosidade? O poder do questionamento? Bobagem... Roda Viva.
  O tempo dissimula e nem você nem eu conspiramos contra isso. Queria ver-te mais vezes, sorver-te... Aspirar seu cheiro, suas ideias, suas manias... Queria, queria. Mais do que tudo, queria que fosse recíproco, queria que me quisesse de maneira equiparável, queria que tivéssemos "delírios de grandeza - que só cabem na loucura -" juntas. Queria, queria... Quero. Embora tenha medo, peço-lhe mentalmente: "vem surtar comigo". 





"Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Apoplexia social

Uma entrada estóica
um passo flutuante
bolha ululante

Um passo para o fim do penhasco,
amor é fiasco inerente,
cala a porra da boca e mostra os dente'

Outro passo em falso
futuro descascado feito a tinta da parede da sala atrás do sofá listrado,
fada verde e cigarrinho do capeta
não preciso mais de caderneta

Período integral
Lapa moral,
Não sinto muito, sou marginal

Sociedade patriarcal
amor maternal
Não quero você no meu funeral.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Lembranças esquecidas


  Sei que nunca vou esquecer meu primeiro pôr-do-sol das pedras do Arpoador. Não, eu não escolho de quais lembranças não devo esquecer, mas há certas coisas que são preferíveis deixar que se apaguem, que desapareçam. Desse pôr-do-sol certamente para sempre lembrarei, e do menino que me disse breguices no cinema enquanto assistíamos a um filme fantástico e ao qual eu não queria deixar de prestar atenção. Vou esquecer de lembrar de algumas pessoas e de rir-me sozinha lembrando fatos deliciosamente memoráveis. Também esquecerei daqueles carinhos que me fizeram na cabeça e de como aqueles dias eram imperdíveis. Já até esqueci os números do celular e da casa... E a cada dia que se passa estando longe, esqueço o rosto que um dia tanto me fez querer viver e tanto me fez querer virar poeira. Esqueço o inesquecível como se fosse um acontecimento fugaz e sem importância. O inusitado sempre me chamou pelo nome carinhosamente. Esqueço da fugacidade daqueles dias de banco para dar lugar ao novo desconhecido que me grita com fúria.
  Talvez meus passos fiquem marcados no infinito do espaço como se fossem constelações que sussurram nomes para as demais estrelas em busca do caminho da casa daquela que esqueço todos os dias, cada dia mais. Em vão, em vão...




"Quando era jovem, eu a mim dizia: 
Como passam os dias, dia a dia, 
E nada conseguido ou intentado! 
Mais velho, digo, com igual enfado: 
Como, dia após dia, os dias vão, 
Sem nada feito e nada na intenção! 
Assim, naturalmente, envelhecido, 
Direi, e com igual voz e sentido: 
Um dia virá o dia em que já não 
Direi mais nada. 
Quem nada foi nem é não dirá nada."
(Fernando Pessoa - na voz de Paulo Autran)




“Aquele mal secreto que a consumia e com o qual os médicos não se importavam muito - sem dúvida por não saberem dar-lhe um nome - parecia a Pascal uma espécie de desencarnação; nem todas as doenças vêm do corpo; uma alma por demais ardente pode usar seu invólucro carnal até aniquilá-lo; mas - infelizmente - nesse esforço para se depurar, não arruinaria a si própria? Naquele momento extremo em que o espírito se libera afinal, não se desvanecerá para sempre? Talvez fique suspenso, durante um breve clarão, numa lucidez absoluta. Como ocorria todas as vezes em que pensava na morte, Pascal sentiu-se acometido por uma vertigem. Suas considerações o levavam com frequência a esse tema, mas só conseguia considerá-lo por alguns segundos.” (Simone de Beauvoir - Quando o Espiritual Domina (La Primauté du Spirituel; cap. IV, Anne; pág. 169)




“Senhor, livrai-nos de tréguas muito prolongadas e da ilusão de haver chegado seja lá onde for.” (Claudel)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Outro Pecado



  Penso que a sua mão-de-obra vale mais do que qualquer dinheiro pode pagar. Porque não é só a sua mão-de-obra, não é só a sua força de trabalho que está sendo usurpada, é a sua vida que se esvai naquelas penosas horas de trabalho maquinal mal-remuneradas.
  Eles te pagam uma miséria pela sua vida que se esvai porque para eles você não tem valor estimado, você não tem importância, você é descartável. Porque para eles você é os outros, e você e os outros são tantos e são um só.
  É uma injustiça brutal vincular coisas como vida à valor monetário, à capital, às duras horas de suor derramado nas indústrias só para aquecer o mercado, a economia, só para fazer dos ricos ainda mais ricos. Esse sim, é o verdadeiro pecado.



“Quanto mais riqueza o trabalhador produz, quanto mais a potência e o alcance do seu produto aumenta, mais pobre ele se torna. O trabalhador se torna uma commoditie cada vez mais barata de acordo com a quantidade de mercadoria que ele produz.” (Karl Marx)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Elogio Perdido




    Por que toda borboleta tem essa maldita sede de voar? Por que não lhes basta repousar em um abrigo confortável?


    Como você pode afirmar que toda borboleta tem sede de voar? E se essa sede for esgotável? E se elas têm sede de voar, não pelo ato de voar, mas por encontrar um abrigo confortável, e por isso voam sem parar? E depois, o que é confortável e seguro nesse mundo? Segurança não existe, paz não existe, confiança não existe, amizade não existe, Amor não existe, céu e inferno não existem, Deus não existe, é tudo invenção. Você e eu também não existimos. Ou somos nada, ou somos tudo, se tudo não somos, nem nada, então somos porra nenhuma, o resto dos restos, o intragável. Mas talvez você seja alguma coisa mais que tudo e eu que não seja absolutamente nada, talvez você exista sozinha e respire sozinha, talvez você seja um "abrigo confortável" e eu não seja digna de repousar. Talvez não seja nem pela sede de voar, mas apenas isso, uma borboleta maldita.











 "Há um poema dentro de mim. Destes de marejar os olhos, de sentir orgulho. Só pode ser um poema de amor. Detalhando os caminhos pelas cicatrizes e encontrando algo desacreditado, um sonho sem visitas, tua verdade mais bem protegida. O poema mistura versos e prosa despreocupado de rimas e intenso na escolha das palavras. Sim, falará dos beijos molhados e dos corpos livres. Mas também vai lembrar da primeira carta guardada no criado mudo, próximo da nossa fé. Vai lembrar do olhar debaixo da chuva. Provavelmente descreverá a beleza de um ponto de vista totalmente parcial. Ele carrega a minha palavra mais preciosa e um ponto final elegante. Completa os sentidos que deixei pelo caminho, refaz meus passos por tudo que aprendi, abre os braços para tudo que não sei. Será uma composição que não saberei reproduzir, única, de forma bruta e deverá permanecer em palavra. Um poema que sussurra, mas não quer sair. Está a espreita de um raiar de Sol mais adequado. Ele é muito natural, mistura estrelas e flores com sentimentos. Quase tem cheiro. É um horizonte preenchido, uma paz conquistada, uma rima com o 'você'."

“Te amo da maneira mais egoísta possível.” (Ensejos)


“Se tu vens, por exemplo, 
às quatro da tarde, 
desde as três eu começarei a ser feliz.” (O Pequeno Príncipe)

“Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa que sem amor, a vida não vale a pena.” (Martha Medeiros)

“Baby, I’m yours
And I’ll be yours until two and two is three
Yours, until the mountains crumble to the sea
In other words, until eternity.” (Baby I'm yours - Arctic Monkeys, Barbara Lewis Cover)

“— Fica comigo?
— E se não der certo?
— A gente tenta de novo."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Again and again and again...


  Quantas vezes ainda vou ter que ouvir que é pra eu esquecer, deixar pra lá, coisas assim? Quantas vezes ainda vou perder horas de banho pensando nisso? Quantas vezes vou esquecer das coisas de tanto pensar nela? Quantas vezes vou sentir esses enjoos por causa de ciúme e tristeza? Quan... Eu disse que esse ano não será mais outro ano lamuriando sobre essa questão. E não será mesmo... Cortei um mal pela raiz e se for preciso corto outro. Corto quantos forem necessários cortar. Sinto enjoo e calafrio só de pensar nisso, mas não sei mais o que fazer. Nada adianta, nada é o suficiente. Eu não sou o suficiente.
  Preferia arrancar as minhas orelhas e os meus olhos a ouvir e ler essas reclamações e esse sofrimento. Preferia virar poeira. Quantas vezes ainda vou dizer que preferia sumir? Quantas vezes ainda vou sentir como se houvesse centenas de cacos de vidro atravessando o meu coração lentamente?
  Sofrer é cada vez mais uma virtude. Meu coração podre é um delinquente descarado que só gosta de quem não me quer, de quem não se importa comigo. Vou partir para a psicologia reversa, talvez as coisas mudem... Para a melhor, de preferência.


Dos mesmos produtores de ‘eu te amo!’, vem aí ‘tomei no cu!’

domingo, 22 de janeiro de 2012

Querido José, muito obrigada

  – Você tem alguma fé na humanidade? – perguntou ela.
  – Se ainda existe quem tenha fé em deus, por que não na humanidade? – indaguei.


  Eu tenho algo, se fé ou não, eu não sei, mas tenho algo. Esse algo que sinto é uma crença fodida na humanidade. Há séculos as pessoas são estas repetidas figurinhas que vemos atualmente, só mudam as roupas e, quem sabe, os cortes de cabelo... Ah, e os aparelhos eletrônicos, estes, cada vez mais sofisticados e mais capazes de tornar-nos cronicamente sedentários, mas isso não vem ao caso.
  Segundo Thomas Hobbes, se não houvesse um Estado responsável por manter os homens em harmonia entre si, estes viveriam em uma constante guerra de todos contra todos, pois o homem, inatamente, é egoísta, pretensioso e ganancioso, ele nasce predisposto a fazer o que for necessário para obter o próprio lucro - mesmo que isso seja proporcionado em detrimento de outrem.


  O que vemos o Estado proporcionar aos cidadãos hoje em dia é o mesmo de sempre, o pão e o café-com-leite para os pobres - quando isso - e a torta de maçã e o champagne para os afortunados. E os homens vivem em uma guerra de todos contra todos mesmo havendo esse Estado tão glorioso. Enfim, ainda assim acredito no raio da humanidade. Apesar de as coisas estarem, em pleno século XXI, um caos, apesar de os homens continuarem insistindo em dominar uns aos outros, apesar de os homens continuarem insistindo em escravizar uns aos outros, em matar uns aos outros, em cuspir na cara da mãe uns dos outros, eu digo: acredito na humanidade. Mudou até agora. Mudou pra melhor? Não exatamente. Mudou pra pior? Não exatamente. Apenas mudou. E se um dia o mundo foi composto por reinos que eram governados por reis, e agora é composto por países que são governados por presidentes, que são responsáveis por suas máquinas do Estado, e que este - o Estado - por sua vez, é um instrumento de dominação - que atende ao capitalismo - usado em prol da grande burguesia, dos empresários, dos detentores dos meios de produção, das classes dominantes em detrimento das classes baixas, dos trabalhadores, dos operários, é prova de que vai mudar. Hoje em dia é assim. E um dia não será mais. O sistema mudou mais de uma vez, várias, na verdade, e continuará mudando. Isso é um fato.
  Eu acredito piamente nas pessoas. Sou ingênua por isso? Sou. E nada fará com que eu deixe de acreditar. É uma coisa muito minha, não sei explicar... Não é como se eu tentasse acreditar, apenas acredito, é uma crença incrustada. Acreditaria mesmo se não quisesse. Mesmo se não tivesse motivos para. Apenas sinto, e isso é o suficiente. Pode chamar de fé, não chamo de nada porque não sinto essa necessidade de nomear uma crença tão independente, tão inata... Dá pra entender!? É o meu sentimento - completamente desprovido de influências - de crença na humanidade, ele não precisa se chamar fé (!), sei que ele se contentaria em ser chamado somente de José. Simples assim.




Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. (Clarice Lipector)


São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas. (Caio Fernando Abreu)



"You may say
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one"
(Imagine - The Beatles)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Matéria-prima


  As pessoas têm o mais sério hábito de não aceitar as outras pessoas como elas de fato são. Existem aquelas que aceitam, mas é inegável que elas nunca aceitam todas as vertentes, sempre haverá aquelas coisinhas, aqueles defeitos, aqueles "modos de agir" primitivos que elas não vão engolir de forma alguma e vão querer ficar  discutindo sobre tais coisas. É aí que está: não adianta conversar, aliás, como se isso fosse conversa, num geral as pessoas acabam discutindo mesmo. E é ridículo.
  O que quero dizer é: você não pode ser você mesmo. Jamais. Você sempre acaba tendo de ser mais complacente, generoso, meigo, introvertido, enrustido, sempre acaba tendo de eufemizar cada vez mais as suas expressões brutas. E para quê? Para agradar aos outros. E por que? Porque tudo o que é diferente de nós mesmos é inaceitável, é estranho, dá medo.
  


  Eu discordo dessa merda!!! Odeio essa camuflagem de um real e noventa e nove centavos! Isso é nojento! Eu gosto de tudo o que é na cara, que não é disfarçado, dúbio! Amo uma matéria-prima, eis a verdade, eis a questão! Amo uma ação primitiva! Amo o que não está tentando mudar a si por causa de A e B! Amo a ideia de aceitar a si mesmo e conviver com isso! Amo poder saber o que alguém realmente pensa sendo indiferente a minha opinião! ISSO É SER VERDADEIRO, PORRA! Chega dessa merda de falsidade! Quer coisa falsa? Vai à Uruguaiana, caralho! Aqui não tem isso, não, porra!



  É por isso que quando a minha mãe quer conversar sobre coisas em que ela e eu discordamos muito, eu prefiro ficar calada! Justamente pra evitar atrito, porque eu sei muitíssimo bem que, por mais que ela "aceite" a minha opinião, vai ficar aquela tensão no ar, e não vai adiantar de porra nenhuma, ela vai continuar pensando da forma dela e eu da minha. Acaba sendo uma conversa - discussão - desnecessária.





“Falta de sorte,
fui me corrigir.
Errei.” (Alice Ruiz)

“Se eu fosse fofa, meiga e sonsa, não teria metade dos meus problemas.” (Tati Bernardi)

“Seja flor e exale-me.” (Igor Pires)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A vida e eu

  Na minha casa alguma coisa entrou em colapso. Alguma coisa dentro dessa coisa se partiu e tudo foi para o brejo. O horto me chama. Ninguém diz nada. E quando diz é lorota.
  Quero ver a fumaça formar desenhos e subir, subir, subir... O doce é o amargo de amanhã?
  Entrei em parafuso e chorei assistindo a uma reportagem sobre a Primavera Árabe. Andando pela rua como se não houvesse amanhã, pensando breguices, fui ao McDonald's e na fila senti um ódio mortal dessa multinacional, do capitalismo, de toda essa loucura que consome as pessoas - e que as faz consumir como traças -, não obstante, comprei o lanche e voltei para casa. E foi comendo isso que assisti à reportagem sobre a Primavera Árabe e chorei, um choro amargo e silencioso.
  Alguma coisa quebrou, mas não foi nesse dia, foi antes. Alguma coisa quebrou e ninguém sabe, só eu, e, apesar de estar expondo, essas duas mil e doses não tomarei lamuriando. As tomarei num gole só, embevecendo-me ao extremo.
  A merda é que preciso de mais um dia ou dois para ficar a par de um chabu imprevisto, porém, muitíssimo previsível. Não estou na onda, por isso a chatice... Mas só de pensar no som da música Cochise - o som que começa a partir dos 55 segundos - do Audioslave já sinto a vibe e ela me faz vibrar em êxtase.
  A vida é uma só e eu também e além de tudo somos livres. Ela e eu, eu e ela. Par perfeito, em sintonia pura, naturalmente sincronizado e infinito. Causa e consequência. Amor e paixão. Erva e seda. E flui espontaneamente.
  "Flui...", penso nisso como se fosse um eco dentro da minha cabeça, como uma fumaça subindo e se espalhando por todos os lados, parece que está se expandindo. E essa trilha sonora enlaça o momento e embala todas as sensações. E é tão lindo, tão maravilhoso, tão místico, tão transcendental que chega a ser inenarrável. A ação é inenarrável e por isso a descrição é sublime e abstrata. Mas isso é mero detalhe, não importa a quem ler, importa a mim, apenas a mim. E para mim, assim está mais-do-que-perfeito.



"Repara no que não digo." (Leminski)

“E é nisto que se resume o sofrimento: 
cai a flor — e deixa o perfume no vento.” (Cecília Meireles)

"E nossos olhos transmitiam coisas indizíveis e infinitas, que nossas bocas não podiam falar." (Machado de Assis)

"Come ride with me
Through the veins of history
I'll show you a god
Who falls asleep on the job

And how can we win
When fools can be kings
Don't waste your time
Or time will waste you"
(Knights of Cydonia - Muse)

sábado, 24 de dezembro de 2011

C'est la vie de merde





  Pontos de poeira na parede não me chamam atenção, nem fofocas alheias. Presentes não insuflam meu peito, nem cachorrinhos ainda filhotes. Por que foi que você enfiou nessa sua cabeça dura que essas coisas são assim? Não curto o drama alheio.
  Gosto de torta de limão e de ir ao cinema sozinha, mas também adoro sair acompanhada. Há quem não se interesse por Laranja Mecânica, nem por 1984, mas que se interesse pelo Manifesto Comunista. E eu com o seu juízo de gosto? E eu com as suas caduquices? E eu com o seu desapego?
  Washburn é uma merda. Pagode é música de "estou com dor-de-cotovelo". Igreja é pra quem não tem cérebro. Mediocridade não é comigo. Não aprecio comodismo.
  Vem comigo e seja essa pessoa que você aprisiona dentro de si mesmo. Me beija até que os olhos mudem de cor, me fala breguices, faça breguices. Pode rir de tudo, pode fazer brincadeiras idiotas, pode ser o que for. Só não mente. Só não seja sacana. Só não me engana que não há necessidade disso. Só não me trata como se eu fosse criança. E pode ficar tranquilo que o resto vem sozinho.


"Quero sensações inéditas até o fim dos meus dias..." (Martha Medeiros)


“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente… E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver.” (Mario Quintana)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Moço

  Esse ano perdi muitas palavras. Perdi por perder, perdi por achar, perdi por falta delas, por falta do que dizer, perdi pelo susto de surpresas. Vivo perdendo coisas! Vivo me perdendo, inclusive.
  Moço, não estou pedindo a você que me restitua das minhas perdas, mas que me deixe reconquistá-las.



























"- A gente se engana.
- Você se enganou?
- Muito.
- Comigo?
- Pior: comigo." (Camila Costa)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Coisas voadas


  Ano de vestibular e não estudei nada, no fim das contas, seja o que deus quiser. Vou para onde passar, não importa a posição, e amém. Ouço The Strokes todos os dias e me amarro. Também ouço The Smiths, Nirvana e Hole, e viajo no som e nas letras e nas vozes. Sempre que ouço Valerie da Amy Winehouse me lembro de alguém, é inevitável. Todo banho é hora de pensar na vida, mas o que é vida? Hoje em dia ser revolucionário é difícil, hoje em dia estar em qualquer lugar é uma prisão. Hoje em dia é um futuro abortado.
  Pensar em século XXI me lembra Capitalismo sanguinário. Pensar em século XX me lembra Guerras Mundiais. Pensar em século XIX me lembra República Oligárquica. Pensar em século XVIII me lembra Revolução Francesa. Pensar em século XVII me lembra Revolução Gloriosa. Pensar em século XVI me lembra Ato de Supremacia. E etc...
  É uma banalidade tão estúpida que chega a me comover. Nasce, cresce, reproduz e morre. E vive? Não sou cult e foda-se. Nunca ganhei estrela dourada na sala de aula, nem o chapéu do burro. Sempre liguei para os estudos, mas nunca me esforcei tanto. Vê-se os reflexos atualmente. Fico nervosa e esqueço tudo o que sei. Meu nome? Que diferença faz? Um dia voltaremos a comunicarmo-nos por ruídos e outros sons grotescos. Teu nome? Gosto de nomes, mas não fazem diferença.
  Hoje é quarta-feira, 2 de novembro de 2011, feriado no meio da semana é sempre tão cara de domingo... Sou estranha e gosto muito de coisas simples, mas isso não é uma regra, e mesmo que fosse, toda regra tem sua exceção, e mais: todas as regras foram feitas para serem quebradas. Não ligo pra religião, futebol e idade, são coisas idiotas e descartáveis. Também não ligo se você utiliza algum docinho ilícito (maconha, MDMA, cogumelos, LSD, DMT, metanfetamina, anfetamina, etc.) para relaxar, é idiota ligar, não que eu queira conviver com viciados. Aliás, ligo se for viciado e usar coisas mais pesadas (tipo crack, cocaína, etc.). Não ligo se você é hétero ou curioso. Mas ligo se for indeciso. Pra falar a verdade, ligar ou não ligar não faz diferença também.
  Hoje está frio, mas quem sabe como estará amanhã? Seu nome vive na minha boca e meus lábios estão ressecados. Gosto de vermelho, mas enjoei dessa cor no meu cabelo. Ainda assim, gostaria de ter uma ruiva agora. Mesmo assim, preferia ter você a qualquer outra pessoa. Se eu for pra Dourados, se eu for pra Pelotas, se eu sumir, se eu nunca mais der notícias, não deixe de me amar.
Não me divirto, não me interesso por outras coisas, as novidades são velhas, rir cansa. Só uma coisa tem me interessado, e não é sexo. É essa droga de vestibular me envelhecendo precocemente.
  Foda-se Simón Bolívar. Foda-se Rosseau. Foda-se Napoleão. Foda-se Jean-Baptiste Colbert. Foda-se Henrique VIII. Foda-se Hitler. Foda-se Mussolini. Foda-se Anne Boleyn. Foda-se D. Pedro I. Foda-se Mendel. Foda-se Bush. Foda-se Obama. Foda-se o Lula. Dane-se o mouro, o cristão, o católico, o judeu, o ateu, o espírita, o budista. Dane-se o preto, o branco, o mulato, até o cor-de-papel (lê-se: pardo). Dane-se o rico, o pobre, o burguês, o maconheiro, o favelado, o nerd, o poser... Dane-se o popular e o desconhecido. Não importa. Nada disso importa. Apenas uma coisa importa e para ela não dão a mínima. E não estou falando (pela milésima vez) de amor.
  E se o IDH for baixo demais, sempre haverá a África para consolo. Não que isso seja bonito ou digno. E se metade da população for analfabeta e miserável, sempre haverá um governo bonzinho o bastante para se preocupar com isso e dar conta do recado. E se Ditadura for a solução, sempre haverá Marte, Júpiter e outros. E se você ainda não for louco, ainda há tempo para se curar. E se estiver entediado e quiser tomar um porre, me ligue!
  Pensando bem... Não precisa nem ligar, apareça de uma vez. Pessoas que ligam e marcam, invariavelmente, furam o compromisso. E mesmo que não seja esse o caso, não ligue, simplesmente surja. Gosto de surpresas. E por favor, não seja do tipo de pessoa com incontáveis restrições, esteja apta a todo e qualquer tipo de loucura, das mais às menos bocós. Fale o que vier à cabeça, faça o que der na veneta. Siga seus instintos. Flua naturalmente. Isso importa.


"Stop
A vida parou
Ou foi o automóvel?"
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 1 de outubro de 2011

Amor não é qualquer porcaria



  Não sei o motivo, não sei de nada. É por que eu tô ficando velha? Mas tenho nem 30 anos... Só sei que a minha vida parou, não durmo mais, não estudo mais, é raro eu ler alguma coisa, também não saio... Só faço ficar aqui, parada nessa sala, sentada nesse sofá. Não sei o que é isso. Pode ser tédio, vazio, desinteresse, preguiça... Vazio? Não, vazio não. Mas estou atenta. Atenta às sensações. Sei que não estou sentindo nada, absolutamente nada. Então por que eu sinto como se alguma coisa estivesse errada, do avesso?
  Não, eu não estou sentindo nada, nem vazio, nem como se alguma coisa estivesse errada, nem essa dor. Menos ainda essa última. Viver é só isso? Não. E isso também não é o Amor. Isso é o ENEM se aproximando, isso sim, estão explicadas a inércia, a insônia, a indiferença, o desinteresse pelas novidades.

  Vou falar do Amor (ó, novidade!). O que é o Amor? O que essa ínfima palavra costuma significar? Como é possível expressar tal sentimento tão grandioso por intermédio de uma única palavra tão pequena, composta por apenas quatro letras? É possível expressá-lo todo em apenas uma palavrinha sem que se pratique ação alguma? Falar de Amor cansa. Falar de Amor arde.
  Vou tentar contar não o que é o Amor, mas a minha visão de como ele é. Para mim, em toda a minha ignorância, o Amor (escrito assim mesmo, o "A" em caixa alta) não é uma coisa simples, não tem como encomendá-lo numa loja, pagar com um cartão de crédito, ou amarrar uma fita. Para mim o Amor pode ser cultivado, pode florescer, pode crescer... Opa, "peraí", mas afirmar que ele pode crescer seria afirmar que ele também pode decrescer (como toda a lei vigente...), tal qual afirmar que ele pode florescer, afirmando isso afirmaria que ele pode desflorecer, morrer, murchar... Sendo que em minha concepção o Amor não termina, posto que há apenas uma explicação ao terminar: nunca existiu, e assim é afirmado que ele não pode nascer e crescer. Mas então se o Amor pode ser cultivado, mas não pode nascer e crescer, ele não existe (...!), dizer isso seria dizer que a abiogênese (que significa: não origem biológica; estudo sobre a origem da vida a partir de matéria não viva) é verídica! Mas se for pensar por esse ângulo, seria preciso admitir que o Amor pode ser tratado como uma parte do corpo humano, que pode ser podado, curado... Seria necessário admití-lo como questão biológica, e também o caso das sexualidades (que também não é questão de cura, de tratamento químico, amputação, ou sei lá o que), não existe essa coisa de "virar" homossexual, "virar" hétero, ou é, ou não é. Mas dessa forma seria necessário admitir que uma pessoa que gosta de determinada coisa não pode simplesmente acordar num belo dia de primavera e ter vontade de experimentar algo "novo" e saciar esse desejo e gostar e continuar com a vida dessa forma. Ou seja, seria preciso admitir milhares de outras milhões de coisas e isso não teria fim, já que é um ciclo de (novamente, milhares de outras milhões de coisas) sei lá quantas redes, seria preciso, além de entrar no campo da ciência, da biologia, entrar no campo da filosofia, enfim! Concluindo (...), seria, antes de tudo, necessariamente preciso admitir que o ser humano é incapaz de evoluir, de mudar, de se estender. O que não é verdade. Essa é, digamos, a base da vida do ser humano: evoluir. Tudo o que conhecemos provém de uma (ou umas) "evolução". A ideia de algo maravilhoso e desejado que não pode nascer e/ou crescer, e portanto não pode diminuir e/ou morrer - ou seja, essa coisa é pronta, sempre esteve presente, viva -, essa ideia de Amor que preexiste é realmente linda, muito romântica, logo (e isso faço contrariadamente), não existe, é uma ideia puramente fantasiada, justamente pela sua beleza, pelo seu romantismo. Eu gostaria muito de poder crer que o Amor está lá, sempre vivo, onipresente, imponente, que ele é imortal, que ele é infindável, mas não gosto mais ainda do fato de que dessa forma estaria pensando numa coisa tão bela como sendo nada mais que um congelado, que vem pronto "ah, é só pôr no microondas por cinco minutos e tá pronto!", não, isso é inadmissível. Eu gostaria muito de continuar crendo que o Amor não tem começo e fim, mas acabei de convencer a mim mesma que sim, ele tem começo e tem fim, e ótimo, melhor ainda, agora posso pensar no Amor como na própria vida, tem uma duração, é feito pra acabar, isso quer dizer que cada minuto de Amor é precioso pra caralho e não pode ser disperdiçado nunca - bem, pelo menos para mim. Tudo o que tem uma validade é precioso, pessoas que têm o tempo de vida contado, num geral (...), vivem, diga-se de passagem, melhor, de maneira mais intensa, que o Amor seja assim também. Então voltemos: para mim o Amor pode ser cultivado, pode nascer e pode crescer (e aqui admito todas as vertentes que já citei). Para mim o Amor é construido detalhadamente, mas não apenas dessa forma, Amor é um quebra-cabeça, beleza, mas não é só isso. Para mim Amor não é coisa calma que entra pela porta da frente e senta no sofá como se fosse visita nova, envergonhada, não, pra mim Amor é coisa louca, avassaladora, não é coisa de domingo, é coisa pra-todo-dia, caso contrário não seria Amor, seria apenas mais outro sentimento qualquer. Para mim Amor não é coisa pouca, é enorme e enlouquecedor, Amor não é como um sapato que se não tem a cor que você queria "ah, fico com esse mesmo", puta que pariu, né!? Amor não são raspas e restos, e se não for único, que sejam muitos, que sejam tantos que se perca a conta deles! Para mim é válido morrer tentando, é válido morrer experimentando estes e aqueles Amores bárbaros, arrasadores, ingênuos, virgens, tolos, inteligentes, sensuais. Para mim Amor não pode ser coisa simples, sentimento nenhum é simples, muito menos o Amor. Pessoas também não são simples, ou fáceis, nem relacionamentos. Uma das maiores besteiras de todos os tempos é querer imbuir a ideia de que Amor é simples, é fácil, é isso e aquilo, é assim e assado, que Amor é como fazer compras no supermercado "pode pesar direto no caixa". Amor não é coisa fácil, é coisa complexa.
  Para mim o Amor é tanta coisa que não cabe aqui. Amor é fadado, é que nem flor, floresce, cresce, reproduz (ou não) e morre, e é necessário regar e dar muito carinho e atenção todo o tempo, senão não cresce, não reproduz, morre prematuro. Amor não pode ir sozinho, não é que nem quando você escolhe algo de um cardápio e na pressa acaba indo qualquer coisa sem acompanhamento: Amor exige ação. Só Amor não há santo que aguente, amar e ficar deitado na rede é muito fácil, falar é muito fácil, fazer é que são outros quinhentos.
  Amor é lindo e dá trabalho, muito trabalho, Amor não é para os fracos. Só ama quem é forte e tem disposição. Pessoas que não são fortes, nem têm disposição deveriam andar com uma placa frente-e-verso (e com neon, de preferência) bem grande pendurada no pescoço.



"Tão bom morrer de amor e continuar vivendo." (Mário Quintana)

domingo, 18 de setembro de 2011

Não fossem as mudanças...



  Não  fossem as perdas, não sei o que seria de mim. Não fosse a desilusão, não sei o que seria dos outros. Gosto que o tempo passe, não é como eu, ele nunca pára - sob hipótese alguma. Não gosto desse vazio, que na verdade nem sei se é de fato vazio, sei que não é nem alegria, nem tristeza, afora isso não sei de mais nada. Saberia, não fosse o auto-retardamento... Não fossem as perdas, não sei o que seria das lições. Não fosse a calma, não sei o que seria o desespero, mas sobre calma sei mais teoria do que qualquer outra coisa, aliás, conheço o que é desespero de cor, portanto, imagino o que seja a calma.
  Por mim isso não teria perdurado tanto, tempo é coisa preciosíssima. Por mim muitas coisas seriam outras coisas. Por mim... Mas vergonha alheia não dá em todo mundo. Por mim ninguém seria obrigado a estudar exatas no colégio. Por mim coisas supostamente desimportantes não são de se jogar fora.
  Todo o dia sacudo a poeira da minha vida e rebolo aqueles bambolês de impropérios que sequer sei de onde vêm. Todo o dia merece ações distintas, mas nem sempre é possível, nem sempre é suportável. Nunca gostei de bambolês. Meus quadris nunca simpatizaram com eles e vice-versa.
  Há perdas-pra-todo-o-dia, há perdas até que se perca a conta delas, perder é inevitável. Encontrar também. Se encontrar idem. Força de vontade pra procurar é outra coisa. Estar disposto a se esfalfar procurando é outra coisa mais diferente ainda. Não fossem as perdas... Não fossem a força de vontade e menos ainda a disposição pra se perder procurando... É preguiça de viver. É obliteração proposital da vida.
  Sei que há caminhos mais fáceis - e alguns fáceis até demais -, e por isso não me agradam. E por isso somos tão incompatíveis, e por isso te deixo uma vaga lembrança de amor verdadeiro, e por isso me tiro indiscutivelmente desse antro de poucas ações, de poucas novidades, de calmaria inviável.
  Mudar, a única coisa da qual não abro mão. E você, você mesma, que pensava que a minha liberdade era tudo, sempre esteve claramente enganada. Não sei o que seria de mim se não fossem as mudanças, eternas e divinas mudanças, invioláveis. Mas por outro lado sempre esteve completamente certa - pelo visto, por motivos equívocos -, ao usar borboletas como referência: a metamorfose é inevitável.


“Vai menina, fecha os olhos. Solta os cabelos. Joga a vida. Como quem não tem o que perder. Como quem não aposta.” (Caio Fernando Abreu)
"Sabe, quando a gente está com medo de entrar num quarto escuro, a melhor coisa a fazer é entrar de repente, sem pensar. Não adianta nada ficar do lado de fora, vendo fantasmas, imaginando coisas que não existem. Melhor entrar de uma vez." (Caio Fernando Abreu)
"Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu seja a vontade de rir. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo." (Carpinejar)
"De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim. De qualquer forma a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?" (Charles Bukowski)

domingo, 11 de setembro de 2011

Para uma péssima pessimista, até que não sou má otimista


  Os outros, os que não me conhecem, devem pensar que sou pessimista, e até os que me conhecem. Aliás, me acho pessimista, mas na verdade penso que sou realista, isso sim. E mais na verdade ainda, vejo muito do lado bom de tudo - talvez numa tentativa desesperada de não entregar jogo algum -, mas essa parte costumo guardar só pra mim, é tão boa que não gosto de compartilhar.
  Sempre que leio algo sobre as características do meu signo (sagitário) está lá aquela mosca irritante que zumbe "otimista", e não concordo nunca. Mas vou admitir pela primeira vez que sou otimista, sim, sou muito otimista, e se não falo nada, ou se falo o oposto, muitas das vezes estou torcendo - internamente - febrilmente em favor de.