"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

I am not but I am

Minha foto
Rio de Janeiro, RJ, Brazil

terça-feira, 15 de novembro de 2016

roda da fortuna

aqui nesse quarto gélido e cerrado, sentada no tapete, sinto os dedos dos meus pés tão gelados quanto uma cerveja recém-saída da geladeira em pleno inverno. cultivo o que dá pé, e o que não dá pé vou regando pra ver se floresce aos pingos de milagre esperançado.
me assombra essa falsa empatia, esse altruísmo irreal, me corrói essa liberdade utópica, esse amor rancoroso, me afasta essa falta de espaço.
me afasta dessa falta de espaço.
a cabeça virada
o sorriso abrasivo
a mão no ombro
laços comedidos
vivência estagnada
o ápice do brilhantismo da esperança no auge do
eu-sozinha eu-por-mim eu-comigo.
eu consigo.
o eu que prevalece com sombra de dúvida no reflexo do tempo espatifado.
eu-tenho-a-mim. e mais ninguém.




"A solidão é um luxo"

domingo, 25 de setembro de 2016

sem título

procura-se:


|s
|e
|r
|e
|i
|a









saudade
não tem tradução



"It's just the start of the winter
and I'm all alone
and I've got my eye right on you
give me a coin and I'll tale you to the moon
give me a beer and I'll kiss you so foolishly,
like you do when you lie, when you're not in my thoughts,
like you do when you lie and I know it's not my imagination

Loving strangers, loving strangers,
loving strangers, oh..."

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

sem título

Tá certo. Cês que são xs normais e eu é que sou louca. Enquanto cês tão conforme as normas, eu vou atravessando as arestas, rebentando feito tromba-d'água-feat-labareda.
Eu tô sofrendo tanto. Nunca fui tão triste. Por que é que a vida existe?

terça-feira, 20 de setembro de 2016

o blues de Lorelai

o tempo chora por agora,
seria fruto da tristeza pela nossa desarmonia?

você que é feita de azul,
não me deixou morar nesse azul
nem encontrar minha paz,

você que é azul demais
você que é azul, demais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

angústia-de-nove-de-fevereiro-de-dois-mil-e-quatorze

Não sei por quê há sempre uma angústia. Angústia de ser, de amar. Angústia por, de alguma forma, """pertencer""" a uma pessoa que não a si própria, por sentir-se de tal modo interligada a alguém de quem antes jamais se ouvira falar. E é angústia por uma dependência ínfima e mútua que se esvai em cinzas.

angústia-de-quinze-de-setembro-de-dois-mil-e-dezesseis

não sou capaz de impedir o (teu) terremoto. nunca fui.
sinto o chão rangendo e se abrindo sob meus pés desnudos. fendas embrasadas.
o olho do furacão se aproxima, e pré-sinto-o tão voraz quanto as (tuas) marés que me enlevam.
olá, vendaval.

domingo, 11 de setembro de 2016

alvoroço labial

As nossas conversas abafadas,
você se derretendo no meu tom
– nosso? teu fim.
Vou captando feito linha-cruzada a tua fragrância power pussy highly sexual
Nossas conversas, palavras bailando
Sarração entre-cílios
que se beijam
entre versos
nossos verbos se esfregando
el fuego desperado
– flor
flores na cabeça,
Amor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Até quando

18:01. Os pontos de ônibus estão apinhados de gente. Pessoas de todos os tipos, de todos os tamanhos, volumes, cores, odores.
18:02. Meu ônibus está em movimento. Todos os assentos estão ocupados. Qual o destino? Para longe e além.
18:03. O sol está terminando seu ritual de se pôr. O tom do céu é de um azul turquesa.
18:04. Hotel California, da banda The Eagles, acabou de tocar nos meus fones. E lá fora é orquestrada a cacofonia dos veículos poluentes.

18:05 18:06 18:07 18:08 18:09

Esse azedume, a rotina, arde nos olhos de qualquer pessoa. Quem nunca se cansa de ser sempre um palito num paliteiro? Quem não se cansa de ser só mais uma carinha falsamente feliz dentre tantas outras carinhas igualmente apáticas, compondo um coletivo tão coercitivo e doentio, protagonizando uma mortandade indissolúvel em plena vida?

Se x povx brasileirx é umx povx triste, isso certamente não se deve aos colonos luso-português – fossem eles aventureiros miseráveis, fidalgos, membros da côrte, tivessem eles sangue azul ou não –, nem axs aborígenes, nem axs negrxs traficadxs do continente africano. Essa tristeza nefanda certamente não se deve ao desejo insaciável por riqueza fácil que tinham os colonos e posteriormente xs mamelucxs e mulatxs e fosse lá mais o quê.
E certamente ela não é proveniente da luxúria e outros desvarios daquelas pessoas. E certamente São Paulo não escapou das lástimas que assolam o país.

18:23. O trânsito está uma bosta como de costume. O transporte público, esse curral, esse matadouro ambulante não vale o esterco de um ruminante.
18:24. And I am hungry like a wolf, disse Duran Duran.
18:25. Alguém escreveu "Dilma e Aécio 'de' as mãos e vão para o inferno" nas costas de um dos assentos, concordo com essx ser iluminadx que desconheço.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Quinta-feira

Estou deitada. Estou deitada na sala. Estou deitada na sala há meia hora. Estou deitada na sala há meia hora ouvindo a vida passar.

Daqui posso ouvir alguém discar números num telefone, e a ligação chamando. Também posso ouvir essa pessoa sendo atendida.
Daqui ouço uma moto passando lá na rua. E mais uma.
Ouço alguns pássaros cantando... Minha irmã caçula também.
E os gatos estão deitados ao meu redor. Três. São três gatos. Todos dormindo.

Continuo aqui, deitada na sala ouvindo a vida passar. Estou pensando em você. É quinta-feira.

sábado, 14 de junho de 2014

Moitas

Há alguns dias li um livro de autoria de Sophie Calle, intitulado "Histórias Reais", nele ela conta brevemente reminiscências da própria vida. Me tocou. Tentarei reproduzir alguns fatos de minha vida da mesma forma. Lá vai:

Lembro de que desde que me entendo por gente gosto de pessoas sem discriminação de gênero. Cerca de aos 4/5 anos de idade, fui apaixonada por uma amiga e por amigo, ambos do jardim de infância.
Eu costumava sonhar com a minha amiga, Tabatha, era como ela se chamava. E também com o meu amigo, de nome Yohan.
Certo dia, após o fim da aula, Yohan e eu saímos escondidos da escola e fomos para o parquinho que havia nos fundos, ficamos entre as moitas. Depois desse dia não lembro de tê-lo visto novamente.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Err

Toda essa areia talvez não saia nunca mais do seu cabelo. Mas e daí, né? E daí que esse é o motivo pelo qual pego um punhado de areia sempre que vou à praia e levo pra casa, ponho no centro da sala e cultuo-o, e conservo-o. Não vejo mais o piso de tanta areia que há pela casa. Isso me lembra seus cachos, isso me lembra você.
Mas eu sou aquela que não acerta uma. Eu sou aquela que pisa mil vezes na mesma bosta de cachorro feita despropositadamente na esquina de qualquer rua. Vai ver é por isso que gosto tanto de sentar no chão, que é bem lugar de gente débil e fraca como eu. Sou aquela que conta os mesmos contos e erra as mesmas passagens. Sempre e sempre. Sou aquela com quem não se discute, mas só porque não vale a pena mesmo. Também sou aquela que valoriza as pequenezas e que treme por dentro quando percebe que não enxerga mais a beleza que há nessas miudezas.
Aprendi que ser alguma coisa não tem valor algum. Aprendi que somos seja lá o que formos até não sermos mais. Aquela que aprende da maneira mais escrota, essa sou eu.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

4:08

  Queria que essa música parasse de tocar na minha cabeça. Que o disco se partisse. Mas ele não pára. Ora, vaso ruim não quebra!
  Portanto, eis-me aqui.
  Aconteço diversas vezes, continuamente. Vivência sem fim por (des)excelência.

  Prevejo cerejeiras indesfrutáveis.
  Antecipo o desconforto.
  Toco a poeira com leveza inexistente.

  Recebo o não-contato, olhares mórbidos e insalubres por merecer.

  Fui-me indo.
  Ops, nem (me) vi.

  Estaquei em plena corda bamba.
  Esbarrei no muro das lamentações. Fiquei grudada.

Down em mim

  Chorei pitangas, contei carneiros, cantei MPB. Ouvi Caetano, Chico, Elis. Adorei outros mortais, alguns singulares. Ri pra não chorar. Chorei quando pude confortar-me a mim mesma. Inventei estórias e histórias, sofri por opção. Abracei-me à solidão. E com ela dancei. Vivi. Amei.
  Sou um pouco disso, um pouco daquilo. Fui outras coisas, de algumas um pouco mais, de outras nem tanto. Me agarrei ao encanto, gritei aos prantos. Pesquisei palavras difíceis só pra rimar bonito, e sofistiquei arrogâncias. Calei pra não ficar só. Deixei pra falar quando o silêncio me pediu.
  Já permiti-me apaixonar. E depois me tranquei em meu próprio infinito particular. Acho que perdi as chaves, sei lá. Labirintos de desilusões.

  Hoje em dia, como cenoura, e continuo não tomando água com gás. Agora toco em margaridas, cheiro o perfume das hortências e despetalo rosas. Aos girassóis dou muito amor e carinho, e água, e luz do sol.
  Antes eu pensava no agora, e agora guardo lembranças. Mas só as boas. As ruins, nessas eu dou descarga sempre que surgem boiando.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ponto de Equilíbrio

Ah, não. Por que é que tudo tem que ser tão perfeito, tão simétrico, tão fria e milimétrica e previamente calculado? Ah, não, ah, não. Por que tudo na vida tem que ser tão moralmente aceito, tão politicamente correto? Ah, não, que merda. Não consigo aceitar seguir esse roteiro de segunda, esse script vagabundo. Assim não dá pra viver, isso não é vida. Não estou nem aí para a normatividade, para moralidades. Pra que seguir o fluxo da correnteza? O que eu ganho com isso? Satisfação própria é que não é. De que vale fazer tudo o que eu deveria fazer do jeito que supõe-se que deveria ser ou melhor fazer tudo o que os outros deveriam fazer do jeito que todo mundo acha que deveria ser feito porque assim sempre foi feito porque é a regra porque todo mundo acha que tem que ser igual a todo mundo porque todo mundo tem que fazer as coisas do mesmo jeito ao mesmo tempo no tempo certo o tempo todo tudo corretamente sem erro algum porque falhar é feio porque não pode arriscar porque se foder é uma merda porque o tempo passa e voa e rodopia e devora porque a vida passa e finda e no forno o frango assa porq... Porque são todos uns palermas. Todos não passam de um bando de "zé-ruela".
E se eu não quiser viver essa vida? E se isso não for o que eu quero pra mim? E se eu não souber se é certo ou errado? E se o brilho da juventude for embora com o vento que traz a meia idade e esse "não quero essa vida pra mim" não bastar e for embora junto e eu me arrepender de tudo? E se eu for desses anjos tortos que vivem na sombra? Que que tem ser gauche na vida!? Quem disse que eu tenho que ser infeliz por não querer o que todo mundo quer exatamente do mesmo jeito ao mesmo tempo o tempo todo todo dia a qualquer hora em qualquer lugar a todo instante repetidas e repetidas vezes para todo o sempre em todos os sentidos e direções no pretérito presente e futuro em todas as encarnações de novo e de novo e de novo dando voltas infinitas atemporais porque é assim que tem que ser? Por que eu tenho que pensar que minha vida vai ser ruim se eu não for rica se eu não morar numa mansão do tamanho da Baía de Guanabara se eu não for heterossexual se eu não for alta loira branca e magra e linda do jeito que "todo mundo gosta" se eu não tiver o carro do ano a roupa do ano o cão de pedigree do ano o sapato do ano o look do ano o corte de cabelo também tem que ser o do ano porque senão tá tudo errado fora de contexto? Por que essa sina em fazer tudo por método de produção em massa todos tão iguais?
Igualdade, eu só quero nos direitos! O filme não deveria ser "Quem Quer Ser um Milionário", mas "Quem Quer Ser um Clone".
É lógico que passar perrengue é um cu preto e sem pregas claro que um erro pode acarretar num milhão de coisas horríveis que podem suceder em outras e mais outras e a vida é uma só claro que posso me arrepender claro que posso comer o pão escarrado e cuspido por uma modelete que tem o cabelo look carro etc etc do ano e voltar ao ponto de partida claro que isso seria um pé nos testículos fígado boca tudo admito que um dia mais tarde há a possibilidade de muitos arrependimentos mas vai dizer que é melhor se arrepender por ter feito algo ou pela dúvida de como teria sido se tivesse feito? Olha lá, calibra essa hipocrisia que "papai do céu" está de olho!
Quem disse que eu não posso muito bem me formar na faculdade e fazer até mestrado doutorado a porra toda do caralho a quatro e cagar para o sistema limpar a bunda lindamente nele pegar os diplomas e ir ser feliz vendendo miçanga em praia ser hippie mochileira viajar como der por aí a pé de bicicleta carona balão jangada foda-se não quero saber posso viver feliz ao léu se assim eu sentir que de alguma forma estou no meu lugar do meu jeito no meu tempo que não são os mesmos que os dos outros.
Precipitada eu? A vida é que se precipita para cima de todos nós como se fosse o coice de uma mula desvairada.




"Don't worry about a thing,
'Cause every little thing
Gonna be all right

Saying , don't worry about a thing
'Cause every little thing
Gonna be all right

Rise up this morning
Smile with the rising sun
Three little birds
It's by my doorstep
Singing sweet songs
Of melodies pure and true
Sayin',"This is my message to you""
(Bob Marley - Three Little Birds)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Caroles

Ela é para mim como esses dias que amanhecem nublados e que em torno do meio-dia surgem, timidamente, leves raios de sol, desses que arrepiam o corpo inteiro. São raios de sol bem leves, num geral ela é como um dia nublado com neblina. Neblina sempre me alegra e dá leveza no espírito.

Eu adorava quando passava de manhã bem cedo pelo Elevado da Perimetral em dias nublados e ficava como que hipnotizada vendo as montanhas ao longe envoltas em neblina. É uma beleza tão fina, tão sutil, tão doce... Sinto saudade.

Ela é como esses dias. Uma beleza rara, tímida e doce. Rara no jeito de ser. Tímida no falar e em se mostrar, como os raios de sol que aparecem em dias assim. E doce. Doce na voz, no falar, no beijo, no cheiro, no riso, no olhar. Doce no íntimo. Doce por fora. Doce como a neblina que me toca no espírito e me encanta e me enlaça numa fina e norteadora sensação de liberdade e leveza.


(Tenho muito a aprender).



sábado, 29 de junho de 2013

Elogios outonais

Gosto de adjetivos estigmatizados, gosto de atos polêmicos e incestuosos, e atos puros também - como beijo no rosto, olhos que sorriem, risadas estalidantes...
Dentre tanta pureza, descobri ultimamente algo que me deixa em êxtase, até mesmo feliz, se é que me entende... Descobri que gosto de elogios, mas não qualquer elogio. Gosto de elogios frágeis como as folhas no outono.
Sim, é meio triste, visto que no outono as folhas ressecam e caem. Entretanto, não quero e nem estou caracterizando os elogios aos quais me refiro como sendo impessoais, às vezes um tanto contundentes, mas jamais impessoais. Quero dizer que são elogios inesperados... Por isso são como as folhas no outono. Sabe-se que numa hora qualquer eles, os elogios, assim como as folhas no outono que estão prestes a cair - e por isso são frágeis -, também cairão, hão de ser ditos.


"— Não soube compreender coisa alguma! Deveria tê-la julgado por seus atos, não pelas palavras. Ela exalava perfume e me alegrava... Não podia jamais tê-la abandonado. Deveria ter percebido sua ternura por trás daquelas tolas mentiras. As flores são tão contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la."
(Antoine de Saint-Exupéry - O Pequeno Príncipe)

sábado, 2 de março de 2013

Quiçá eu quero ver o 0C0

 Pois então revelarei-lhes o que parecemos: parecemos homenzinhos azuis à procura de uma gruta em que nos escondermos. Não adianta negar, bem lá no âmago sabemos que todos nós temos um quê de eremita. Cada um sabe esse detalhe inevitável de si mesmo, e, como já disse, não adianta negar.
 Meses... O que são meses? São meus pés saindo pelas mãos. São minha paciência se dissipando grão-a-grão bem diante do meu nariz. São meus cabelos caindo. São meus nervos à flor da pele. Meses são o fim iminente de todos os dias de nossas vidas. Como os dentes que caem na velhice e as articulações que já não obedecem mais.
 Esse mundo está definhando e todos nós estamos indo pelo mesmo ralo imundo e decrépito. Lógico, né... Nós cavamos esse ralo e não paramos jamais de cavar cada vez mais fundo, e tudo isso só porque nós queremos ver o OCO, o vazio alusivo a que nossas mentes tão inversamente sãs cismam em abraçar. Esse buraco pelo qual damos nossas vidas como se de fato valesse um cruzeiro é a desgraça pela qual procuramos pelo puro prazer de confundir e chantagear a mente do outro que se enfraquece. É um buraco que cada um guarda dentro de si... De si pra si. E de quando em vez tenta, impiedosamente, arremessá-lo para dentro de outrem para que este se acabe de uma vez. Como se tal ato fosse digníssimo.
 A cama e as portas rangem, não obstante a noite não promete nada. Talvez a vida também não. Quiçá eu também não prometa nada, ou prometa e não cumpra... E a vida sempre continua. Ou, como dizem os filmes hollywoodianos - e a música de mesmo título do inesquecível e amabilíssimo Freddie Mercury, vocalista da banda inglesa de rock, Queen -, "the show must go on".
 Mas isso já não é nenhuma novidade, não é mesmo compañeros? Promessa é uma coisa que soa tão... Era Medieval, sei lá. É uma ideia muito bonitinha, mas ainda assim uma bela utopia. Assim como democracia, poderes místicos vindos de deuses de uma outra dimensão, Amor e, sei lá, vaca de soja.
 Vai ver esse é um dos motivos pelos quais eu gosto muito mais dos meus livros do que de gente. Essa gente careta e debilitada que pensa que tudo é purpurina e palco. Do afeto emocional contorcido e do teatral megalomaníaco já estou farta. Sei que ao menos por um tempo, e esse tempo pode durar tanto por meses como por horas, poderei dizer que é bom pôr os pés, diga-se de passagem, muito bem postos, no chão. Talvez até fincá-los!


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Enorme Zepelim

  Gosto de falar com as paredes. Nem sempre, mas gosto. O outro é sincronicamente interessante e estranho. Quem me vê refletida no espelho? O outro ou eu? Talvez eu tenha predileção a tomar caminhos tortuosos.
  Fruto proibido de olhos semicerrados.
  Tinta colorida em luz negra.
  Músicas e bebidas e cigarros.
  The Cure... Não me cure. Minha enfermidade, minha paz avulsa de ponta-cabeça.
  Taquicardias mundanas, desejosas de atritos incoerentes e vindos do enorme zepelim.









“Tenho problemas com o rosto humano. Acho muito difícil olhar para ele. Encontro a soma total da vida de cada pessoa escrita nele e é uma visão terrível. Quando se vêm milhares de rostos em um só dia, é cansativo dos pés à cabeça. E por todas as entranhas. É por isso que admiro os bilheteiros do hipódromo. E a maioria é bem legal. Acho que os anos que passaram lidando com a humanidade lhes deram uma certa visão. Por exemplo, sabem que a maior parte da raça humana é uma grande merda. Eu poderia ficar em casa. Poderia trancar a porta e brincar com tintas ou qualquer coisa assim. Mas, de alguma forma, tenho que sair, e ter a certeza que toda a humanidade é uma grande merda. Como se fosse mudar…” (Charles Bukowski)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Misto de gauche e licença poética

  Quando fecho os olhos sinto como se estivesse bêbada. Como é sair de si, flutuar pra fora do próprio corpo, ficar suspensa como que perdida no ar contemplando a si mesma meio viva, meio morta, estirada no tapete colorido com os pés nus tocando o piso frio de tábua corrida? Ser hippie parece tão cool. Eu não aconteci em Woodstock... Nem você. Mas "você", que eu quero dizer, sou eu, minha mente, meus pensamentos um tanto embaraçados feito os meus fios de cabelo.
  E você, o que você quer? A festa acabou, você acabou, o dia raiou, a noite findou. "Ou". Por que sou tão in? Preciso ser out, completamente out. Quero outs. Também quero sins. Não estou dando uma de Caio, imagina... Quero paz e quero guerra. Mas não quero qualquer paz, tampouco qualquer guerra. Quero a paz de espírito dos hippies dos anos 60 - a que eu suponho que tivessem, visto que é a sensação que me passam -, quero a guerra dos loucos. Eu sou louca. Indiscretamente assumo minha loucura sã. Discretamente tento controlá-la, mas só às vezes, bem às vezes, quase nunca. Não pretendo obter êxito quanto à essa proeza, de qualquer modo. Pra que controlar minhas loucuras se posso devanear milênios sob seus efeitos translúcidos, magníficos, magnânimos, mágicos, monstruosos, sediciosos... "osos"? Isso tudo é tão in. Eu sou in. Eu sou in e minha loucura não cabe em mim. Minha loucura necessita expandir-se, vazar para além de mim e contagiar.
  Dormir sem calcinha é ato digno. Pelada, mais ainda. Digno também é viver o hoje sem ficar cuspindo no passado e tentando adivinhar a cara do futuro. Eu não rascunho os meus dias. Eu engulo o papier-mâché. Não gosto de liquid paper. Saudável mesmo é viver cometendo erros proveitosos. Saudável é escutar sandices enquanto a brisa do mar beija o rosto. Não queria isso, mas pensei em shimbalaiê por um instante... "Você não me ensinou a te esquecer", Caetano me entenderia. Freud, não.
  Me adivinho no compasso dos segundos, nas clareiras do tempo zero, me adivinho no som que emudece a rotina cantilena. Diria que também "te" adivinho, mas estou devaneando comigo mesma... Queria dias mais longos, tristezas mais curtas, pores-do-sol em comprimidos. Queria amor enlatado. Papel rabiscado, fracasso esmagado. Rimas sofisticadas. Não faço sentido.
  Me sussurram mordidas e ecôo Júpiter. Madrugadas voluptuosas ou ingênuas, tanto faz. José é in, assim como eu. "E agora, José?". Sei que não quero terminar como José, seja José de Carlos, seja José de ninguém como se fosse João, mas que na verdade não é, e sim apenas outro pobre diabo esquecido. Lembrei: eu não termino. Sou infindável... Dinheiro na mão é vendaval, pois bem, eu também.
  É me definindo no indiscutível que vou me recompondo ao zero grau de libra em itálico. Se eu fosse um país... Mas isso jamais me ocorreu. Se eu fosse um poema... Mas posso ser tantos que não cabe a mim delimitar... Ou cabe? Sei que sou poesia de cego... Não importa, não "posso ser" tantos poemas, pois "sou", de fato sou, em negrito e sublinhado, tantos poemas quantos forem possíveis de se imaginar. Eu sou o ópio, o ópio do povo. Mentira. Marx, futebol e catolicismo já ocupam esse espaço toptoptop de linha no pódio dos vencedores que não vencem nunca porra nenhuma. A verdade é que eu não caibo em mim.
  Mas continuo caminhando por aí - caminhando, sim, porque vagando daria outros ares, que não indizíveis, porém, errôneos -, me perdendo nas tolices de todos-os-dias... Amém. Continuo por aí, errando obras-primas, cagando cheiroso, desconstruindo rimas, tomando banho de sol, de lua, de mar, até de neblina, pensando breguices, distribuindo patadas, presenteando com flores porque pessoas também morrem, vale lembrar. E continuo por aí, atuando em palcos improvisados por sobre areia. E caminho contra o vento, nada no bolso ou nas mãos... Se tenho amores vãos? Tive. Tive um. Mas já disse que não se deve viver cuspindo no passado, portanto, viremos a página. Tem outra coisa, também vivo amando. Não é a mando do capeta, apesar de vez e outra parecer, é um vivo amando do tipo amando sempre, sempre amando, é um amando ora apaixonado, ora embrutecido... É um Amor dos loucos e chafurdados na merda lodaçal das inseguranças infrutíferas, mas e daí, é Amor, e antes o Amor dos loucos e desvairados que dos fracos e oprimidos, dos medíocres bastardos sem perspectivas delirantes, que das criaturas agourentas e hediondas que nunca, jamais, em hipótese alguma suspiraram Saturno - ou suspiram. Tenho dito. E comprovado. Sério, com selo do INMETRO e tudo. Mas enfim, amando e vivendo. Amando e amando... Aliás, há amando e a-mandos.
  Risos, risos, beijo, beijo.






"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida." (Carlos Drummond de Andrade - Poema de Sete Faces - Antologia Poética)

"- Como é que você sabe?
[...]
- Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
- Eu não sei nada.
- Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
- Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
- Ninguém compreende.
- Às vezes sim. Eu te ensino.
- Difícil, [...]" (Caio Fernando Abreu - O dia que Júpiter encontrou Saturno - Morangos Mofados)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Roda Viva

  Ai de mim, não gostar de subversão, das subjetividades do momento, de memória. Também gosto de pureza, da inocência irrefutável de certas criaturas. Queria ser direta, mas a prolixidade não permite. Ah, e os conformismos... Malditos sejam.
  Seu cabelo curto e enegrecido me cativou. E o seu, cabelo comprido e ruivo, também. Sei lá, acho que só muda a embalagem, o resto é a mesma coisa. Você, ela, eu... Ironias dessa imensurável Roda Viva. Roda Viva. Roda Viva. Como isso deve soar em latim? Roda Viva. Perdão, não sei latim. Então por que pensar em como deve soar nessa língua? Não sei, curiosidade? O poder do questionamento? Bobagem... Roda Viva.
  O tempo dissimula e nem você nem eu conspiramos contra isso. Queria ver-te mais vezes, sorver-te... Aspirar seu cheiro, suas ideias, suas manias... Queria, queria. Mais do que tudo, queria que fosse recíproco, queria que me quisesse de maneira equiparável, queria que tivéssemos "delírios de grandeza - que só cabem na loucura -" juntas. Queria, queria... Quero. Embora tenha medo, peço-lhe mentalmente: "vem surtar comigo". 





"Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa)