"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

I am not but I am

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil

sexta-feira, 11 de março de 2011

Mal me quer, bem te quer


Sou covarde e retrocedo quando devia continuar em frente, é verdade, você sabe disso, já é a segunda vez. Arrebentei as suas asas de propósito só para que você não pudesse voar junto a mim, só para que você não tivesse o desgosto ainda maior de subir e subir e cair feio, aquela velha estória de "quanto mais alto pior a queda". Mas é claro que não foi apenas pensando no seu bem estar que podei as suas asas, foi pensando no meu e no de terceiros... Eu te avisei, mas você continuou insistindo em voar comigo. E o que eu fiz? Te fiz flutuar uns poucos metros e soltei, maldade minha, eu sei. Me sinto péssima por estragar os seus sonhos de se ver livre dessa terra semi-árida e improdutiva, de se ver livre dela voando comigo para algum lugar nos céus, bem entre as nuvens, num paraíso que não pôde existir porque eu apedrejei tudo o que lhe dizia respeito. Mas não vou pedir desculpas, nem que me perdoe, não hoje, nem amanhã, mas um dia hei de fazê-lo. Então, depois de cortar as suas lindas asinhas e despedaçar os seus belos sonhos, quis reparar o irreparável, senti que podia, senti que estava sentindo certo, e talvez esteja, e o que eu fiz dessa vez? Não quis arrancar novamente as suas asas como se fossem pétalas, cantando "bem me quer, mal me quer...", então deixei que você voasse com alguém melhor, menos fraco...
Deixo você livre pra voar pra onde quiser, com quem quiser, quando quiser, só me promete que não vai deixar que cortem as suas asas novamente, só promete que não vai ficar como eu, lendo e relendo reminiscências e chorando o leite derramado, lendo nessas páginas as marcas do que foi desejado e não cumprido e chorando mais ainda. Enfim. Pode voar pra bem longe de mim, se quiser, porque olha, pior não pode ficar.



"Não fazemos o que queremos e, no entanto, somos responsáveis pelo que somos: eis a verdade." (Jean-Paul Sartre)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Relacionamentos que não dão certo e o por quê de continuar se apegando

   A partir de, sei lá, agosto do ano passado, eu e uma amiga sempre passávamos as horas de 9:15 às 10:30 (por vezes até mais do que isso) das nossas manhãs de quartas-feiras conversando, falávamos sobre diversas coisas (geralmente eu monologava persistente, mas ok), até que (fazer o quê!?) ela começou a namorar com um tal de Felipe. E, adivinha, as nossas conversas passaram a girar em torno da relação estranha deles (ok, não todas, mas enfim). Até aí, tudo bem, o problema mesmo começou quando o namoro deles deixou de ser um "mar de rosas" (não que em algum momento qualquer tenha de fato sido um "mar de rosas", mas, continuando), daí ela reclamava que ele não conversava com ela, e blablablá... Logo depois ela mudou a conversa para outro plano, "Meus Relacionamentos Passados e suas Crônicas", nesse plano ela contou como eram os garotos com os quais ela havia se relacionado anteriormente, um pouco de como eles costumavam agir, e, é claro, a parte crucial, o fato supremo de que os relacionamentos dela nunca, jamais, em hipótese alguma davam certo.
   E eu lembrei muito disso tudo o que nós conversamos quando tomei um belíssimo chute no rabo há alguns meses. E lembrei de novo nessa madrugada, porque alguém (que eu não vou citar) está sentindo falta de uma amizade perdida, e toda essa melação. Mas eu não quero ficar falando sobre os relacionamentos afetivos alheios. O drama é que essa mesma pessoa que perdeu uma otimíssima amizade (e está a ponto de arrancar os pentelhos um a um com os dentes por causa disso) fez algumas perguntas bem clichês, do tipo que todo romântico e abobalhado sofredor faria, como "não consigo aceitar que as pessoas vão embora, por que não consigo esquecer?", "Pra quê nos apegamos às pessoas se corremos o risco de perdê-las?", e assim me fez pensar um pouco mais sobre essas coisas que fazemos, mas que, tão obviamente não vão durar, ou dar em lugar algum, ou até mesmo que vão dar em algum lugar, mas que depois precisaremos fazer tudo outra vez, ou sei lá o que, sabe, coisas como tomar banho, acordar, pentear o cabelo, estudar... "Pra quê tomar banho se vai se sujar?", "Pra quê acordar e arrumar a cama se mais tarde você vai dormir e terá de fazer tudo novamente?", "Pra quê pentear o cabelo se ele vai embaraçar?", "Pra quê estudar se vai morrer?", essas coisas óbvias que todo ser humano (ou quase todo) faz.
   A verdade é que eu fiquei com a última pergunta (com e sem todo o sentido) dela na cabeça "Pra quê nos apegamos às pessoas se corremos o risco de perdê-las?". Pra quê? Pra quê raios eu saio de casa todo o santo dia, de segunda à sábado, para ir ao colégio (moro na Taquara e estudo no Colégio Pedro II de São Cristóvão) estudar se um dia eu vou morrer? Qual o propósito de estudar, passar para uma boa universidade, se formar, arranjar um emprego, conquistar coisas como um posto alto com um puta salário, casa, carro, constituir família e tudo o mais? Não sei a resposta para nenhuma dessas perguntas que vivemos nos fazendo nem para a que Renato Russo fez na música "Pais e Filhos": por que que o céu é azul?
   Mesmo não sabendo resposta alguma para essas perguntas insistentes e sem pé nem cabeça, e por vezes sem fim me fazendo as mesmas perguntas, não vejo lógica em parar de viver por causa dessas coisas. Tá que seu namorado é um mané sem atitude, e que você teve tantos outros relacionamentos antes desse e que nenhum deles foram assim tão mais excitantes e felizes, mas e daí, vai parar de viver por causa disso, por causa dessa merda que vai acontecer ao longo de toda a sua vida? Tá bom que a sua amiga tão querida parou de ligar e dar notícias sobre a vida tão corrida e maravilhosa que é a dela, e que hoje em dia, sem uma mísera notícia daquela filha de uma vaca que se dizia sua amiga, você continua tentando entrar em contato com ela enquanto se debulha em lágrimas por não conseguir, e fica se perguntando "por que, por que diabos eu ainda me apego, me importo... Blablablá?".
   Tá bom que a sua vida tá uma merda e você só se fode, e daí? Então quer dizer que a solução infalível para todos os problemas (sejam eles afetivos ou não) é virar eremita e ir morar numa gruta, caverna, sei lá, completamente isolado? Se acalma e vai comer um pão de queijo mineiro, vai.





 Ágata é viciada em pão de queijo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Não aprendi

"Mania de esperar que as coisas sejam dum jeito determinado, por isso a gente se decepciona e sofre."

A crueldade é digna. Sabe como é, a vida é muito breve e eu choro pelo ano, mas por que? Não sou de ferro, nem malígna, muito menos impassível, como costumam dizer ou pensar. Apenas humana, com carne, osso, cabelo, atitude, altivez, esperança, burrice, todas essas coisas estúpidas que um ser humano no mínimo algum dia já teve eu tenho, só que não costumo me policiar e acabo por ter demais. Isso me esgota o ânimo. E tenho essa pequena coisinha de acreditar e idealizar mais do que deveria, quando nada sai como era esperado apenas prorrompo-me aos soluços, essa coisa de acreditar não é só acreditar, não é só pôr um pouco de esperança e esperar que se multiplique, é mais, e idealizar também não é tão fácil, idealizo com vontade. Mas então recebo a notícia de que não poderá ser de tal forma e não me sinto feliz em proceder dessa maneira, é caminho demasiado longo, como isso sucederá? Não perco as esperanças ou a burrice hereditária, nem deixo de fazer altas idealizações, contudo, continuo sem saber como lidar com a decepção quanto às mudanças de rumo que os planejamentos tomam por si mesmos. Me acostumo com certa ideia e então faço o possível para que tal ocorra, mas se ela não ocorre, se as coisas não tomam o rumo que deveriam tomar, se elas saem do controle, saio também, sinto o amargo. Não sei lidar com a perda. Não me ensinaram, não aprendi e tampouco tenho vontade para tal.


"Trata-se de uma decepção diferente: não tenho ódio nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Responda

Como seria se nossas vidas não fossem estas? Como seria se as mãos que me tocam fossem as suas? Como seria se nosso planeta de origem não fosse este, como seria se ele fosse qualquer outro? Imagine, invente um.
E se nada do que vemos for a verdadeira realidade? E se eu te dissesse que é só imaginar, que assim pode-se criar mundos e vidas ilimitados, que assim pode-se ir aonde quiser sem mover-se? Se eu te dissesse que da mesma maneira é possível transformar vinho em água salgada e qualquer vida amarga em fábrica de guloseimas?
O que você pensaria caso eu te dissesse que tudo isso que vivemos é mentira e que os corpos celestes são outros? Você acreditaria nas minhas palavras, nada mais que palavras, sinceras palavras de uma verdadeira mentirosa? O que você pensaria caso eu te dissesse que vida é ouro e ações são prata?


domingo, 26 de dezembro de 2010

Funciona?

É uma droga tremenda viver não gostando de ninguém, viver odiando as outras pessoas, é uma droga ninguém ser bom o suficiente, ninguém te cativar de verdade. É uma merda passar tantos anos, quase uma vida inteira, sem que uma única alma te encante pra sempre, sem que nada te faça amar de verdade, se apaixonar loucamente. É uma merda. Alguém me diz como é ter isso?
Na verdade isso já me aconteceu, mas não foi tão forte, ou sei lá, talvez eu tenha sido a culpada, não dando atenção, rebaixando, me lixando, faço muito disso. Sou dessas que quando tem o que quer de repente perde o interesse. Simplesmente perco o interesse e me sinto mal por isso acontecer, não costumo ter consciência se é ou não proposital, apenas perco o interesse e fico remoendo. É bem estranho. Que nem quando eu acordo normal, com o humor normal - digo, nem triste nem feliz -, mas do nada começo a querer ficar triste e passo o tempo me pondo pra baixo, dizendo e pensando coisas desagradáveis. É realmente estranho.
Eu queria mesmo que uma coisa dessas acontecesse num desses verões, ou num desses dias de inverno, tanto faz, só queria que uma coisa dessas acontecesse e eu me perdesse totalmente sentindo esse tanto de coisa bonita, que prende a gente e nos faz não pensar em mais nada, e tudo são flores e Amor. Eu realmente queria isso... Como deve ser olhar para alguém e sentir essa coisa tão grande e boa e sentir essa pequena e particular morte, como deve ser isso? Como deve ser sentir-se tão intimamente entrosado, tão dependente e não ao mesmo tempo, tão... Sei lá? Como deve ser olhar pra esse alguém e pensar claramente "estou mesmo na merda", mas não por amar essa pessoa, mas sim por amá-la tanto? Como é não gostar de verdade de ninguém a sua vida inteira e então amar tanto alguém? Como isso funciona? Funciona?


"É impressionante como eu não gosto de ninguém mas, de vez em quando, escapa um momento, um gesto, uma pessoa perdida e linda e única." (Tati Bernardi)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Então o que?

Vou driblar a letra de Natasha e fugir com dezoito, que tal? Não baby, não é nada disso, não é porque a vida sem você é uma merda fatal, não baby. Minha vulnerabilidade corrompe tudo o que tenho, preciso, preciso... Preciso de coisas difíceis, de coisas intangíveis, preciso de tudo, não me limito ao que tenho, quero mais, mais, mais, muito mais. É por isso que os relacionamentos acabam? Por não se contentarem com o que têm? Por quererem mais? Por cobrarem demais? O que é? Bom mesmo é viver de liberdade, baby, mas confesso que até isso enjoa, baby, baby, aquele dia em que você partiu deixou marcas, e não estou falando das concavidades que você deixou na porta principal, ao sair violentamente e jogar maliciosamente na minha direção aquela machadinha, que bom que tenho ótimos reflexos baby, senão... Então, deixou marcas, coitada da porta, coitada de mim. Ó, coitadas. Não tive coragem. Não baby, não tive, vão fazer dois meses que você partiu e somente hoje pela manhã troquei a porta por uma nova, e sem marcas, mas baby, não tive coragem de jogá-la fora, de amontoá-la na esquina junto ao lixo alheio. Merda, é uma merda, guardei a porra da porta dentro do meu quarto, do nosso quarto, e fico apreciando as marcas. Pelo menos as da porta são visíveis a olho nu.
Me desculpe pela minha fraqueza estúpida, baby, olhar para esta porta e rever tudo é muito... É. Por que nós não nos bastamos? O que nos faltou? Te cobrei demais? Você se expôs demais? O que foi que aconteceu?
Tudo isso é mesmo uma merda, não é? Eu te amo e você foi embora, se nem mesmo uma coisa dessas se sustenta, então o que?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta à Mafalda

Querida Mafalda.
 Meu bem, vê se te enxerga que tu não é cega, não quero saber da sua torpe existência. Para de me ligar, para de anunciar notícias sobre a sua vida para mim, cacete, não quero saber se tu emagreceu ou passou para as Forças Armadas, não quero saber se casou ou comprou uma bicicleta, nem se usou aquele leite em pó horrível pra fazer nescau, porque né, tu sabe que isso seria o fim-da-picada até mesmo para uma pessoa tão torpe como você, leite em pó não, isso não tolero. Você sabe. Leite em pó não serve pra nada, é horrível, tudo o que se tenta fazer envolvendo leite em pó sai ruim, bolo murcha, nescau fica aguado, tetas caem, crianças choram, o tempo vira, George W. Bush nasce, romances vão para o ralo, enfim, catástrofes acontecem. Por favor Mafalda, essa é a única notícia que quero saber de ti: usou a porra do leite em pó? Se a resposta for sim, mando atearem fogo à sua casa. Ou talvez eu mesma o faça, não há necessidade de envolver pobres inocentes nessa calamidade.
 Mafalda, sua estúpida, só me diga se usou o maldito leite em pó, é tudo o que desejo saber. Não me conte sobre seu gato, não quero saber o por que de ter ficado acordada até às 3 da matina, menos ainda se sua menstruação não desceu esse mês. Some, Mafalda, só some.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Outro clichê




   Não me esqueço de você, por mais que eu tente, por mais que o tempo passe, por mais que eu precise me desamarrar... Esqueço, esqueço mas imprevisivelmente me vens à cabeça. Hoje lembrei muito de você, não foi exatamente fácil, mas também não foi nada difícil. Lembrei de você e comecei a pensar em viajar, em sumir, virar poeira e me soprar pra longe daqui. Pensei em cumprir com uma coisa que te disse há uns 4 meses, pensei seriamente nisso, ainda estou pensando, seria a minha cara fazer uma coisa dessas mesmo sabendo que na volta para casa me estreparia pelo resto do ano.
   É uma sensação indescritível acordar e ter uma vontade súbita de fazer algo, e essa vontade se espalhar, tomar conta, e ser cumprida. Após acordar, você permanece deitado e fica calculando os prós e os contras dessa vontade louca, daí você pensa por um segundo, apenas por um segundo, “Ah, foda-se”, se levanta, pega as tuas coisas e sai de casa pra voltar somente quando a vontade estiver saciada. É realmente indescritível a sensação de desejo saciado.
   Dessa vez não acordei e senti essa vontade louca, estava estudando física lindamente, amo física, é uma das poucas coisas que amo mais do que a você, enfim, estava lá estudando, estava tocando “Ainda não passou” do Nando Reis, foi ela a culpada, me lembrei de você e dei uma remoída nas lembranças castanhas de nossas fingidas viuvezes. No meio dessa remoída lembrei daquela coisa que te disse em agosto sobre a hipótese de você ficar doida varrida e querer me esfregar pra fora da tua vida, você lembra? Enfim, pensei nisso e logo depois pensei em viajar, pensei em como seria bom voltar a fazer o que me dá na veneta sem explicar a ninguém, apenas fazer e depois arcar com as conseqüências, bons tempos. Pretendo voltar a esses tempos. Talvez. E pra abrir com chave de ouro, essa viagem seria sem dúvida a melhor escolha, mesmo que só dure um dia ou algumas horas.
   Depois de desejo fatiado e remendado, voltaria felizfelizfelizlizlizliz. Senão dezembro, senão janeiro, fevereiro. 

   Quem liga para o Carnaval?
   Escrevo clichês.









"Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!

Eu não suporto ver você sofrer
Não gosto de fazer ninguém querer riscar o seu passado
E o que passou, passou
E o que marcou, ficou
Se diferente eu fosse será que eu teria sido amado?
Por você, por você"
 
(Ainda não passou - Nando Reis)

domingo, 5 de dezembro de 2010

No cu delas



 


"A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar, sabe quando vai dar?"


Lindo, né? Eu digo que te amo, tu afirma que me ama e saímos de mãos dadas por aí. Lindíssimo, lindíssima cena de filme. O Amor é uma coisa maravilhosa, irmão, maravilhosa, até que te despedaça, até que te crava uma estaca pelas costas e te estraçalha forever, o Amor é mágico, mágico pra caralho, te destrói em segundos. Amor? O que é o Amor?
Eu te digo, te amo meu amor, te amo muito, e tu rebate dizendo que me ama também, que me ama muuuuito, muito, muito, que é pra sempre. Pra sempre!? As pessoas dizem que é pra sempre, eterno, forever. No cu delas. No cu apertado delas! Amor é o caralho. Pra sempre, no cu de quem diz, Amor não é assim, sai daí, bando de animal. Porra.
Lindo. Tão lindo que não suporto todo esse sentimento cheio de si, tão cheio, mas tão cheio, mas não para de crescer e absorve, absorve, e te engole pra dentro dele, e tu se perde numa coisa maravilhosa, mas não dura, não é pra durar. Já começa com fim premeditado. E você sai disso tudo arrebentado, esfolado, com fraturas expostas, você sai horrível, cuspido, triturado. Quando você sai.
Cara, Amor é uma coisa muito complexa, muito intensa. É coisa sensorial demais pra mim, me arrebento sempre, sem exceção. Amor é uma auto-destruição aclamada. Todo mundo quer amar e ser amado, coisa sem igual, essa tortura coletiva. Pra que amar? Pra que pedir para ser iludido? Pra que se desgastar com essa merda moribunda? Pra que pedir pra tomar no cu? Amar não é vida. Meu chapa, o Amor não existe, e no cu delas que é pra sempre, no cu apertado e preto e sem pregas de quem diz que é pra sempre, porque, oras, pra sempre é nunca mais.


"Em movimento, andando por aí, perdendo ou ganhando, levando porrada, tentando amar."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Minha poltrona

Oi, lembra de mim? Estava contigo quando comecei a deixar-me sair de dentro de mim, do meu profundo fundofundofundo como se estivesse afogada há eternos segundos de longos milênios. Você lembra? Tava sempre comigo, sempre me seguindo, me acompanhando e questionando tudo, nunca me deixava sozinha ou cabisbaixa. Onde você tá, cara? Me liga, me manda uma mensagem, um scrap, um e-mail, ou um tweet mesmo. Se comunica comigo, vamos nos conectar mais uma vez mais, me diz como tem andado, com que pernas, com que pensamentos. Lembra daquela lagoa? Lembra de quando íamos para lá e nos divertíamos à beça? E daquela noite sob as estrelas, aquela única, em que acampamos todos juntos numa mesma barraca?
Nunca te esqueci, não me dói, mas gostaria que você lembrasse mais de mim, você foi um bom amigo-amante, quase sempre constantemente quieto e calado, mas um bom amigo-amante.
Melhor que não lembre de mim àquela época mesmo, eu era tão imbecil, tão nova e idiota. E você... Ah, você era você, nós fomos nós, não me arrependo de nada, nem da vergonha ou da humilhação. Agora já passou. Agora você é homem formado e mora tão longe e truncado que nem sei como chegar, agora você continua você, sempre você, e eu continuo me definindo e redefinindo a cada instante, sempre nessa marca registrada de discordância e confusão, sempre eu, eu, eu.
Aliás, não sei o por quê de o assunto ter ido parar em você, cara, não tem nada a ver contigo, nada a ver com os nossos passados terem-se cruzado inexplicavelmente naquele fim-de-Brasil.

Agora sim.
Cara, você invadiu a minha vida assim sem mais nem menos, sem pedir nem nada, você simplesmente arrombou a porta da minha vida com o teu trator ultramoderno e se instalou na sala de estar, na minha poltrona favorita, e se recusou veemente a sair. Sério, você é mesmo muito insistente e circunspecta. Ou dá ou desce, simples assim, ou prefere que eu desenhe para seu melhor entendimento? Cara, você arrombou a porra da minha porta e se apossou da minha porra de poltrona favorita. O que você quer com isso?
Sério, você chegou de mansinho, bem como quem diz não querer nada, aí começou essa invasão, agora tu não sai mais, vai ficar e se hospedar até quando? Já sabe que por aqui ninguém costuma durar por mais de três meses, quando duram três meses.
Cara, gosto muito de você, muito, não me pergunta, só aceita. Mas deixa eu sentar na minha poltrona, ainda sou eu que mando nessa porra.
Obrigada, querida, você é muito gentil.


"E as rosas ficaram desapontadas.

— Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem eu pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa." (O Pequeno Príncipe)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alba del Rojo

Alba del Rojo era infalível na arte de adivinhar e esbarrar em colunas d'água, ela jamais sentia temor ao descobrir segredos escondidos sob tapetes e sofás. Acordava sentindo-se tonta e com dores na cabeça e coluna. Alba era de estatura mediana e corpo delgado, olhos de cigana traiçoeira, pele macia e cabelo arroxeado, desde pequenina com altas inclinações para os mistérios de Pandora e alucinações taciturnas.
Alba, mulher madura e letrada, independente e ávida. Aos 26, pariu mais bela criatura, Abella Rojo Delasarmenta. Alba, mulher sensual e incorruptível.
Aqui estou, desolada do mundo, assistindo a vultos convulsos, tempestades rotineiras e à vida inexorável. Aqui estou, montada na mortandade intemporal e na irreal e nefanda estrutura de solidariedade e Amor. Sou egoísta e vôo alto com os pés fincados, sou egoísta e durmo profundo de olhos abertos, sou egoísta e me permito sonhar com amores cansáveis e aventureiros, livres de delimitação e nobres orgasmos esquálidos, fingidos e dolorosos.
Eu sou minha única mulher. Me tatuo a marca do tempo.








Eu quero mesmo é alguém que me faça mudar completamente de opinião. Que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão. (Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Do que você tem desistido ultimamente?

Ultimamente, tenho aberto mão da minha vida, sabe, de sair, viver, descobrir, sorrir, sentir. Tenho vivido tão para dentro, mas tão para dentro, que, sinceramente, não lembro como é viver para fora. Apenas sinto saudade de coisas que não foram, coisas que sonhei, que aspirei com força, que moldei com Amor e carinho, sinto falta da ausência que não foi, que não será jamais.
Ultimamente, venho sentindo esse cheiro velho, esse cheiro costumeiro de lembrança engavetada, de cabelo que foi preso molhado, de dia seguinte que não chega. Sinto esse cheiro de lembrança esquecida e jogada fora, que está me abandonando aos pouquinhos, que está se desacomodando de mim. Sai cheiro, sai de mim, me deixa pra trás, me deixa pra frente, sai de mim cheiro inerente.

Antes eu pensava que não seria possível uma coisa dessas vazar, mas aconteceu, talvez fosse feito de poeira, tapar com a peneira não deu certo, os raios fugiram, a fumaça subiu, os sinais sumiram. Nós sumimos um para o outro, deixamos, de quando em vez, uns vestígios de passagem aqui e lá, nada mais que uns vestígios muito mal feitos e derramados. Éramos tolos.
Agora eu penso o mesmo de antes, não é possível uma coisa dessas vazar, se vazou, é porque não era uma dessas coisas. Só isso... Há sempre a Tequila no final de cada estação. Na falta de Tequila há sempre a Natasha, ótima substituta nestas horas sem fôlego de vida.

Ultimamente, continuo vivendo para dentro, um pra dentro mais externo e igualmente turbulento e agitado. Ultimamente, ah, ultimamente é olhar com as mãos e sentir o aroma com a boca, ultimamente são tato e manha, fadiga e medo.
Ultimamente é momento único, etéreo e banal. Agora deveria ser hora de alguma coisa.

No momento tenho jogado fora um bocado de chances desejadas, no momento estou sendo o outro pouco que sou, quê quis você? Você me quis que eu bem sei, você me quer que eu tô sabendo, e nem adianta fazer aquelas caras e bocas de desdém, nós sabemos que tu me quer.
 Engraçado mesmo é que você não vem buscar o que é teu. Ficar chupando dedo deve ser mais cômodo.
Já disse que admiro atitude? Levanta desse banco e diz na minha cara, tá mais do que na hora, ficar esperando não é atitude que se preze.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Meus, só meus.

A gente ri, a gente chora, segunda-feira a vida externa-padrão reinicia-se. A luz da memória apaga e acende, apaga e acende, as portas do armário abrem e fecham, abrem e fecham.
 A boca dela também abre e fecha, abre e fecha, e eu fico olhando, só olhando.

É que ela é tão intocável que me retém distante e perto, só olho e ouço, às vezes invisto... Mas tudo a longas distrações, longos espaços, tudo ocularmente insensível, informal e ponto. Mas só ocularmente. É que ela é intocável e ninguém é bom o suficiente, na verdade, nem eu. Menos ainda eu.

Olha só o que se passa, crio os meus problemas mesmo quando eles são improváveis, não vivo sem eles, meus problemas, meus, meus, meus, todos meus. Veja bem, estava tudo quase ótimo, aí eu resolvi mudar o curso das coisas, só isso! Adivinha no que deu? Merda. Cor de merda, textura de merda, cheiro de merda, forma de merda, merda pura, puríssima.

E se tudo regressar, já pensou nisso? Serão mais X horas de Z dias, de Y semanas, por N meses. Parabéns, você é a melhor, grandessíssima fazedora-de-merdas!
A boca vai abrir e fechar, ficarei apenas observando e ouvindo, pensativa, maquinando, medindo os prós e os contras, sensacional essa habilidade inata do ser humano, adoro muito tudo isso.
Pensando bem, ela não é tão intocável assim, talvez queira ser, mas não é, muito pelo contrário.

Ainda falta bastante para que tais segundas-feiras recomecem. Amém? Não.



"Será idiota recitar Vinícius de Moraes: 'que seja infinito enquanto dure'. A despedida não é lugar para poesia." (Fabrício Carpinejar - O Amor no Colo)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Franquezas

Estranheza é necessário e fraquezas não são motivo para escárnio. Te falo francamente: não sei dar continuidade. Não sei, nem nunca soube.

Sabe esse sentimento perigoso de desacato e vigarice? Me atacam. Me transformam. Não me pergunte como consigo me olhar no espelho todos os dias. Tento, tento enxergar uma coisa que não é, que está lá no fundo, presa. Todas as manhãs é essa mesma ladainha, olho, procuro, não acho, tento de novo, não resulta em nada, "tente novamente mais tarde, volte sempre".

Estupidez é necessário, demência e sonsice. Sensatez, malícia e manha também.
Outro empecilho: algumas, para não dizer tantas, pessoas têm imã ou dedo podre, que seja. Tem que ver isso daí, problema sério.
Fraquezas todo mundo tem, a diferença mesmo está em como cada um lida com as suas, mas como proceder com quem não lida? Como vou proceder? Fraquezas, para que vos quero... ?


A carne é fraca, a carne é fraca, a mente sabota, o coração transborda. A carne é fraca e fraudulenta.
Fraquezas e franquezas trocaram alianças?
Adoro esse sentimento corrosivo de desacato e vigarice. Preciso urgentemente domá-los.







"Liberdade na vida é ter um Amor para se prender." (Fabrício Carpinejar)

domingo, 21 de novembro de 2010

Vai, criança.

Porque nem sempre a lufada é boa,
porque nem sempre a surpresa é bem vinda,
porque nem sempre sabemos lidar com o que desejamos ou temos.

De dia e de noite, solidão a dois também mata, mas não te perturbes, caso não tenha sido dessa vez, poderá ser numa outra, vai depender da sua vontade. Na verdade, esperar somente por flores e cores soltas é um erro. Mas se isso te agrada, faça-o então, só não diga mais tarde que não avisei.

Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas, sei que passam várias porcarias, idiotices, putarias, preocupações, enfim, coisas e mais coisas, e aí? E se você não tem um ou uns relacionamentos felizes e satisfatórios, vai ficar cismado? Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas. São bilhões de pessoas. Bilhões.

Porque não há fantasma que dure para sempre, nem chuva que jamais deixe de chover,
porque viver também é recordar.

E se você não se deixa subir, alcançar, cair e se estatelar, se reerguer e superar, então faça um grande favor para o mundo, se mata.
"Recordar é viver" não significa que deva se tornar um museu de coisas perdidas e insuperáveis, nem um mausoléu de rancores, apenas aprenda a se conformar e seguir em frente.

Viver também é ignorar para superar, se for preciso.
Viver não é uma coisa bela sempre, só quase.
Vai viver.
Vai subir, alcançar, cair e se estatelar, se reeguer e superar.
Vai viver, criança, para de perturbar.


sábado, 20 de novembro de 2010

Eftdpejgjdboep...

Fv tfj, fv tbcjb rvf wpd^f ob~p qpefsjb tfs bttjn ub~p mfseb! Qsjodjqbmnfouf efqpjt efttb v´munb ufsçb, ob~p qsfdjtfj pmibs qbsb p tfv tfncmbouf, op fybup jotubouf ujwf rvbtf dfsufab.
B wjeb f´ nftnp Cfmb! Nvjup Cfmb, Cfmj´ttjnb!

Preciso dizer, de concreto, nem as paredes da minha casa. Mas...



"And it's driving me mad
It's all over, all over, all over my face"
(I Want The One I Can't Have - The Smiths)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A rede

Deitado na grama fria, olhou perdido para o céu e respirou fundo, absorvendo cada sensação, cada esperança, e pensou em como era bom sentir-se assim, independente e satisfeito consigo mesmo. Dormiu e sonhou sonhos gulosos e intangíveis, cheios de mistérios e fantasias carnais, sonhou sonhos sonhados por homens solitários e comuns, de vida rotineira e sonhos intragáveis.
Ela estava balançando a si mesma em sua velha rede remendada, balançava e balançava, a brisa acariciava-lhe o rosto e sentia-se viva e capaz de tudo. Podia sentir o começo, podia ouvir, podia, podia... E não parava de embalar a si mesma na velha rede remendada. Balançava e balançava, como se estivesse balançando sua própria vida, balança, balança, calmamente, empurrão por empurrão, brisa por brisa, sonho por sonho...
Deitado na grama fria, ele sonhou com uma moça que se balançava numa velha rede remendada e esta, ao adormecer, sonhava com um cara que estava deitado numa grama fria e olhava perdido para o céu, absorvendo suas impressões e este, sonhava sonhos ininterruptos e intragáveis.
Gostaria de ter aquele homem para si. E embalá-lo consigo, em sua velha rede remendada.



"Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo."
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eu borboleta

Sou uma novela mexicana. Sou uma novela mexicana bem explícita e fui tirada do ar por conteúdo inadequado, violência demais, palavreado chulo demais, nudez demais, mutilação demais. Tudo demais, minha novelinha mexicana tosca é excessiva, mostra demais, diz demais, exala demais. E agora foi tirada do ar, irônico, não? É tudo o que pedem e é tirada do ar, cortada, censurada num golpe só.
Mas que novela é essa de uma personagem só, né? Ridícula, não tem estória, não tem trama, não tem nada. Mas sou novela mexicana, daquelas bem bregas e dramáticas ao extremo. Nasci novela mexicana e morrerei novela mexicana.

Sou praticamente um "Canavial de não-paixões".

Proibíram a mim, novela mexicana, de praticar a quem quisesse, todas as ínfimas ações - e transgressões -, de que tenho posse. Como sempre não dou lucro algum aos meus produtores. Mas enfim.
Só me resta reeditar todo o roteiro e seguir em frente... Isso dá medo e é doloroso, aquelas personagens tão gêmeas, tão completas... É, tá, tchau pra elas. O novo roteiro implica mudanças drásticas, foda-se, mesmo assim manterei o palavreado chulo, é minha marca maior, talvez não a única, mas é a mais perceptível... O palavreado chulo, a falta de pudor, a sacanagem explícita citada e feita - epa -, a liberdade de expressão, os abandonos sem explicação, a raiva endemoniada, enraizada além dos poros, o chororô e a tristeza desmedidos, o raciocínio primeiro inapto, a frieza descomunal, a total falta de confiança e segurança. São tantas as marcas...

Contudo, de novela mexicana incorporo em borboleta. E o que há de tão surpreendente e magnífico em ser borboleta além de me metamorfosear? Voar pra bem longe, para onde não possam me ver? Não ter ninguém? Ser "livre"? Livre de que? O meu passado me persegue, o meu eu não me deixa em paz. Mas se borboletas não têm parceiras, então talvez eu seja mesmo uma borboleta. E talvez um dia eu realmente suma, voe para bem longe, bem longe, e não dê mais notícias, e nunca reproduza, e nunca seja feliz, essas coisas de borboleta amaldiçoada... Mas ainda não sei o que há de tão esplendorosamente sensacional em ser borboleta, até agora só me deu desgosto e mais insegurança.

É muito estranho a maneira como certas coisas tão pequenas me atingem de forma tão grande. E é aí que me deixo rolar... Nunca vou esquecer dessa conversa.


"Há muitas razões para duvidar e uma só para crer."
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Momentos "nostalgia"

    Sinto falta de quando eu era criança, de quando estava triste e minha mãe me ninava enquanto eu chorava, fazia "shhh shhh" no meu ouvido e me dizia "vai ficar tudo bem", e mesmo que não ficasse - que fosse, eu jamais acreditava que fosse ficar -, eu podia continuar chorando até pegar no sono sem sentir culpa por isso. Hoje, ainda posso chorar, chorar, chorar muito por todos os meus problemas e decepções, mas não faz sentido, não vai adiantar chorar por todas as insatisfações e não haveria como fazê-lo sem sentir culpa, a não ser quando é noite, vou dormir e não é mais possível controlar, aí não há culpa que cale, apenas alívio...
    Mas não sou mais criança, não posso mais chorar por tudo e ter alguém fazendo "shh shh" no meu ouvido sem sentir vergonha.
    A vida é barro seco e minhas lágrimas são de pedra.










 O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

domingo, 17 de outubro de 2010

Instants

Depois de tudo o que passamos, de todos os nossos planos, de todas as nossas aventuras, acaba assim. Você não me abraça mais ao dormirmos, deita-se silenciosamente, meio afastada e virada para o outro lado. Parece que não estou mais aqui. Dia após dia, noite após noite, semana após semana, durante quinze anos fomos felizes e inseparáveis, mas agora, logo agora, que perdi meu seio, que perdi um pedaço carnal de mim mesma, você resolve arrancar de mim minha segurança, minha estabilidade... E se eu não quisesse que isso se destruísse? Não conta? Depois de todos esses anos... Parece que não estou mais aqui e que você não quer que algum dia eu já tenha estado, não me olhas mais, e quando o faz, não há doçura, nem paixão ou alegria em ver-me, é tão frio e abominável.
Desejo que o lugar para onde está indo seja melhor do que este, desejo que você se realize e que nunca se esqueça de mim, de nós. Não pense que sou cruel por isso. Sou pior, muito pior do que isso. Desejo que você jamais esqueça o quanto uns dias fomos as criaturas mais felizes que poderiam existir e que você estragou tudo com o seu egoísmo, com o seu orgulho infinito e com o seu escárnio desmedido. Desejo com a força de mil sóis que você viva, viva muito e muito bem, que tenha saúde o suficiente para ver todos os seus amores desfalecendo, morrendo, apodrecendo e se perdendo na memória do tempo.
E no último dia de vida, quando estiverdes arfando a última brisa, lembrará de todo o seu mal, de toda a sua insignificância, e já será tarde para tudo. Sozinha e infeliz. Que pena.
Depois de todas as cópulas, de toda a vivência... Nada valeu a pena, nada foi frutífero, nada sucedeu em coisa alguma. Nenhuma forma de amor é válida.



"O cruel vinha de que o silêncio também seria inábil e farposo,
contudo educado, então feria, e não pense que vou esclarecer
quem, facilitando a cegueira, pressa ou tontura: O cruel era a
palavra verbalizada, e o verbo era o mal? Mas o silêncio idem..."
(Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados)