"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

I am not but I am

Minha foto
Rio de Janeiro, RJ, Brazil

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Amor(tecedores)



Sabia que penso demais e isso me confunde mais do que ajuda? Sabia que andei querendo me perder e estragar tudo? Sabia que muitas coisas me revoltam e muitas outras me encantam? Sabia que sonho muito acordada? Sabia que daqueles três meses só no meio do segundo que eu juntei coragem o suficiente pra tirar o envelope de cima da mesa? Sabia que eu tinha a pretensão de jogá-lo fora mas que a coragem foi suficiente apenas para transportá-lo da mesa para o guarda-roupa? Sabia que me martirizo muito por uma das coisas que fiz nesse período? Sabia que é muito sabia pra pouca pessoa? Sabia que espero estar com você daqui a cinco anos? E feliz? Muito muito muito feliz? Infinitamente feliz? E continuar com você por mais dez, quinze, vinte anos? Aliás, sabia que vou ficar com você para sempre? E te amar com todo o Amor do meu mundo? Sabia que não é verdade essa coisa de "o que os olhos não vêem o coração não sente"? Sabia que adoro fazer perguntas e que 60% não fazem sentido e que os outros 30% têm duplo sentido? Sabia que isso que eu acabei de dizer é uma meia-verdade? Sabia que tenho ciúmes até do ar que você respira? E das roupas que te tocam? E do céu que te contempla todos os dias? Sabia que isso é bobo, porém, verdade? Sabia que isso está semelhante ao que andei escrevendo nesse fim de semana? Sabia que, além de tudo, isso está melosíssimo? Sabia que existem nesse mundo tecedores de Amor? Isso faz algum sentido?

sábado, 7 de maio de 2011

GENTE!!

"Cartas de amor - Rubem Alves



Leio e releio o poema de Álvaro de Campos. Oscilo. Não sei se devo acreditar ou duvidar. Se acredito, duvido. Duvido, porque acredito. Pois foi ele mesmo quem disse – ou melhor, o seu outro, o Fernando Pessoa – que ele era um fingidor. “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas...”

Tenho no meu escritório a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço, “A mulher que lê”, Johannes Vermeer (1632-1675). Uma mulher, de pé, lê uma carta. O seu rosto está iluminado pela luz da janela. Seus olhos lêem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram, a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso. De tão absorta, ela nem se dá conta da cadeira, ao seu lado. Lê de pé. Penso ser capaz de reconstruir os momentos que antecedem este que o pintor fixou. Pancadas na porta interromperam as rotinas domésticas que a ocupavam. Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão. Pela simples leitura do seu nome, no envelope, ela identifica o remetente. Ela toma a carta e, com esse gesto, toca uma mão muito distante. Para isso se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas mais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem, ao tocarem a mesma folha de papel. Barthes cita estas palavras de Goethe: “Por que me vejo novamente compelido a escrever? Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos querida receberão este papel...”

Volto ao Álvaro de Campos. Será esta a razão do ridículo das cartas de amor – o descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente querem dizer? Pois o propósito explícito de uma carta é dar notícias, e é por isso que elas são feitas de palavras. Mas o que elas realmente querem realizar está sempre antes e depois da palavra escrita: elas querem realizar aquilo que a separação proíbe: o abraço. Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora do lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala pelo desejo, a dor da ausência, a nostalgia pelo reencontro.

Aquela carta fez tudo parar. A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa apenas, a luz, o lugar onde as palavras ficarão luminosas. Que lhe importa a cadeira? Esqueceu-se de que está grávida. Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que a abraçaram. Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano.

Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões . A mulher está só. Se há outras pessoas na sala, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem que ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que fique sozinha...” É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois, foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que vejo agora é a estrela que se foi, há dois anos atrás. Pois foi este o tempo que a sua luz levou para chegar até meus olhos. O que eu vejo não mais existe. E será inútil que eu pergunte: “Como será ela agora? Existirá a dois anos, quando a sua luz chegar até mim”. A sua luz estará sempre atrasada. Vejo aquilo que já se foi... Nisto as cartas de amor parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A carta de amor é um abraçar no vazio...

“Ainda bem que o telefone existe”, retrucarão os namorados modernos, que não mais têm que viver o amor no espaço das ausências. Engano. Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial: o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. Num telefonema a gente nunca diz aquilo que diria numa carta. Por exemplo: “Eu ia andando pela rua quando, de repente, vi um ipê-rosa florido que me fez lembrar aquela vez...” Ou: “Relendo os poemas de Neruda encontrei este que, você gostará de ler...”

A diferença entre a carta e o telefone é simples. O telefone é impositivo, a conversa tem que acontecer naquele momento. Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta. E, uma vez terminado, os dois amantes estão de mãos vazias.

Mas a mulher tem nas mãos a carta. A carta é um objeto. Se não tivesse podido recolher-se à sua solidão, ela poderia tê-la guardado no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefonema não pode esperar. A carta é paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poderá ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta contra o rosto – poderá haver coisa mais terna? Uma carta é mais que uma mensagem. Mesmo antes de ser lida, ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presença sensível de uma felicidade invisível...

Estes pensamentos me vieram depois de ler as cartas de um jovem cientista, Albert Einstein, à sua amada, Mileva Maric. Foram elas que me fizeram ir ao poema de Álvaro de Campos: ridículas. Todas as cartas de amor são ridículas. Acho que os editores pensaram o mesmo. E como desculpa para o seu gesto indiscreto de tornar público o ridículo que era segredo de dois amantes, escreveram uma longa e erudita introdução que transformou as ridículas cartas de amor em documentos da história da ciência. Valem porque, misturadas ao ridículo de que os amantes se alimentam, se encontram pistas que dão aos historiadores as chaves para a compreensão das “fontes do desenvolvimento emocional e intelectual dos correspondentes”. Não sabendo o que fazer com o amor (ridículo), colocaram-nas na arqueologia da ciência.

Foi então que o quadro de Vermeer me fez ver a cena que as cartas de amor escondem. E a mulher com a carta na mão e uma criança na barriga? Ela bem que podia ser Mileva, grávida de uma filha ilegítima, que foi dada para adoção, e sobre quem nada se sabe. A criança foi dada. Mas as cartas foram guardadas. E que razões poderia ter uma pessoa para guardar cartas ridículas? O seu rosto absorto e os lábios entreabertos nos dão a resposta: para aqueles que amam as ridículas cartas de amor são sempre sublimes.

Volto ao poema de Álvaro de Campos e encontro lá o que faltava para fechar a cena:

Afinal,
só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor
são ridículas."





quinta-feira, 21 de abril de 2011

Nosso partido é um coração partido

Tenho um casal (ou não, né) de amigos que tem passado por uns problemas de interação, aceitação e até de etapas (!). Sim, etapas. Vou explicar: um ama de mais e o outro ama de menos. Amar de mais? Amar de menos? Como assim, né!? Então, um deles, o garoto G, ama o garoto J, no entanto, o garoto J não corresponde aos sentimentos do garoto G no mesmo grau e tem medo disso, pois ele queria amá-lo na mesma intensidade, mas não ama, e com base nesse motivo ele, o garoto J, resolveu terminar o que estava para ter com o garoto G. O garoto G ficou arrasado. Mas esse não é o "problema de etapas" ao qual fiz referência no início, eis que: o garoto J queria muito sair entrando numa relação séria e ser amado e amar intensamente; e o garoto G queria muito ter essa oportunidade com o garoto J, mesmo que esse não o correspondesse totalmente (e nem meio totalmente, o que é lastimável, devo dizer); resumindo, ambos estavam errados logo de cara. Um querendo atropelar todo um processo incrivelmente cansativo e lindo e o outro tendo zero Amor-próprio.
Mas não sejamos hipócritas, né! Não sejamos falsos-moralistas, por favor! Chega de falso-moralismo nessa vida, chega de propaganda enganosa, chega de mentira, chega de fingimento, chega de enrolar, chega de bancar o otário, chega de se humilhar, chega de ser capacho, chega de ter sangue de barata, chega de ser futurista. Não serei hipócrita, assumo meus momentos de zero Amor-próprio, já tive muitos. E sei como é se forçar a seguir em frente, se convencer do esquecimento pleno. Sem mais.


"O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver


Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu


O nosso amor
A gente inventa
Inventa
O nosso amor
A gente inventa


Te ver não é mais tão bacana
Quanto a semana passada
Você nem arrumou a cama
Parece que fugiu de casa


Mas ficou tudo fora de lugar
Café sem açúcar, dança sem par
Você podia ao menos me contar
Uma história romântica

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu


O nosso amor
A gente inventa
Inventa
O nosso amor
A gente inventa"
(O Nosso Amor a Gente Inventa - Cazuza)

"Viagens tão óbvias
Loucuras tão sóbrias"
(Blues do Iniciante - Cazuza)

domingo, 3 de abril de 2011

Enxergar

Não preciso comentar sobre os bocados, né? Pra quê!?
Mas tem uma coisa que me aconteceu em especial. Não, eu não conheci ninguém, nem me amarrei em alguém... Enfim, eu estava chegando em casa, depois do colégio, e ainda dentro do ônibus, antes de ele dobrar mais outra esquina eu olhei para a parte de cima de um morro verde, e sabe que eu vi algo que eu jamais tinha parado pra prestar atenção!? E olha que eu moro aqui na Taquara há quase quatro anos. Então, eu não vi algo realmente extraordinário ou inacreditável, apenas uma antiguíssima casa de engenho, provavelmente abandonada, pois ela está com uma aparência horrível.
Depois que soltei do ônibus fiquei pensando nisso (de novo), nessas coisas que estão bem na nossa frente e a gente nunca vê, nunca dá a devida atenção. E quando dá já não faz a menor diferença.

É questão de olhar e enxergar, nada mais. Eu só precisava olhar pra frente.

Cheguei em casa, tomei banho e fui assistir a um filme que uma amiga me emprestou, "A cor púrpura". E por incrível, ou por mais idiota que pareça, esse filme só ressaltou o episódio que passei mais cedo. Quantas vezes mais vou ter que repetir que a vida é irônica e adora pregar peças?






"Tudo no mundo quer ser amado. A gente canta e dança e grita porque quer ser amada. Olhe as árvores. Elas fazem tudo o que a gente faz para chamar a atenção, menos andar."
(The Color Purple)

domingo, 27 de março de 2011

Untitled

   Hoje eu ouvi de uma pessoa que ela talvez me ame também. Ontem ouvi essa mesma coisa de uma outra pessoa completamente diferente e deu no que deu. E dá no que dá.
   Sabe, eu tô cansada. Vou me esconder de mim mesma, porque eu sou a única culpada por tudo isso.
   Ninguém sabe o que é essa palvra. A-m-a-r.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Mal me quer, bem te quer


Sou covarde e retrocedo quando devia continuar em frente, é verdade, você sabe disso, já é a segunda vez. Arrebentei as suas asas de propósito só para que você não pudesse voar junto a mim, só para que você não tivesse o desgosto ainda maior de subir e subir e cair feio, aquela velha estória de "quanto mais alto pior a queda". Mas é claro que não foi apenas pensando no seu bem estar que podei as suas asas, foi pensando no meu e no de terceiros... Eu te avisei, mas você continuou insistindo em voar comigo. E o que eu fiz? Te fiz flutuar uns poucos metros e soltei, maldade minha, eu sei. Me sinto péssima por estragar os seus sonhos de se ver livre dessa terra semi-árida e improdutiva, de se ver livre dela voando comigo para algum lugar nos céus, bem entre as nuvens, num paraíso que não pôde existir porque eu apedrejei tudo o que lhe dizia respeito. Mas não vou pedir desculpas, nem que me perdoe, não hoje, nem amanhã, mas um dia hei de fazê-lo. Então, depois de cortar as suas lindas asinhas e despedaçar os seus belos sonhos, quis reparar o irreparável, senti que podia, senti que estava sentindo certo, e talvez esteja, e o que eu fiz dessa vez? Não quis arrancar novamente as suas asas como se fossem pétalas, cantando "bem me quer, mal me quer...", então deixei que você voasse com alguém melhor, menos fraco...
Deixo você livre pra voar pra onde quiser, com quem quiser, quando quiser, só me promete que não vai deixar que cortem as suas asas novamente, só promete que não vai ficar como eu, lendo e relendo reminiscências e chorando o leite derramado, lendo nessas páginas as marcas do que foi desejado e não cumprido e chorando mais ainda. Enfim. Pode voar pra bem longe de mim, se quiser, porque olha, pior não pode ficar.



"Não fazemos o que queremos e, no entanto, somos responsáveis pelo que somos: eis a verdade." (Jean-Paul Sartre)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Relacionamentos que não dão certo e o por quê de continuar se apegando

   A partir de, sei lá, agosto do ano passado, eu e uma amiga sempre passávamos as horas de 9:15 às 10:30 (por vezes até mais do que isso) das nossas manhãs de quartas-feiras conversando, falávamos sobre diversas coisas (geralmente eu monologava persistente, mas ok), até que (fazer o quê!?) ela começou a namorar com um tal de Felipe. E, adivinha, as nossas conversas passaram a girar em torno da relação estranha deles (ok, não todas, mas enfim). Até aí, tudo bem, o problema mesmo começou quando o namoro deles deixou de ser um "mar de rosas" (não que em algum momento qualquer tenha de fato sido um "mar de rosas", mas, continuando), daí ela reclamava que ele não conversava com ela, e blablablá... Logo depois ela mudou a conversa para outro plano, "Meus Relacionamentos Passados e suas Crônicas", nesse plano ela contou como eram os garotos com os quais ela havia se relacionado anteriormente, um pouco de como eles costumavam agir, e, é claro, a parte crucial, o fato supremo de que os relacionamentos dela nunca, jamais, em hipótese alguma davam certo.
   E eu lembrei muito disso tudo o que nós conversamos quando tomei um belíssimo chute no rabo há alguns meses. E lembrei de novo nessa madrugada, porque alguém (que eu não vou citar) está sentindo falta de uma amizade perdida, e toda essa melação. Mas eu não quero ficar falando sobre os relacionamentos afetivos alheios. O drama é que essa mesma pessoa que perdeu uma otimíssima amizade (e está a ponto de arrancar os pentelhos um a um com os dentes por causa disso) fez algumas perguntas bem clichês, do tipo que todo romântico e abobalhado sofredor faria, como "não consigo aceitar que as pessoas vão embora, por que não consigo esquecer?", "Pra quê nos apegamos às pessoas se corremos o risco de perdê-las?", e assim me fez pensar um pouco mais sobre essas coisas que fazemos, mas que, tão obviamente não vão durar, ou dar em lugar algum, ou até mesmo que vão dar em algum lugar, mas que depois precisaremos fazer tudo outra vez, ou sei lá o que, sabe, coisas como tomar banho, acordar, pentear o cabelo, estudar... "Pra quê tomar banho se vai se sujar?", "Pra quê acordar e arrumar a cama se mais tarde você vai dormir e terá de fazer tudo novamente?", "Pra quê pentear o cabelo se ele vai embaraçar?", "Pra quê estudar se vai morrer?", essas coisas óbvias que todo ser humano (ou quase todo) faz.
   A verdade é que eu fiquei com a última pergunta (com e sem todo o sentido) dela na cabeça "Pra quê nos apegamos às pessoas se corremos o risco de perdê-las?". Pra quê? Pra quê raios eu saio de casa todo o santo dia, de segunda à sábado, para ir ao colégio (moro na Taquara e estudo no Colégio Pedro II de São Cristóvão) estudar se um dia eu vou morrer? Qual o propósito de estudar, passar para uma boa universidade, se formar, arranjar um emprego, conquistar coisas como um posto alto com um puta salário, casa, carro, constituir família e tudo o mais? Não sei a resposta para nenhuma dessas perguntas que vivemos nos fazendo nem para a que Renato Russo fez na música "Pais e Filhos": por que que o céu é azul?
   Mesmo não sabendo resposta alguma para essas perguntas insistentes e sem pé nem cabeça, e por vezes sem fim me fazendo as mesmas perguntas, não vejo lógica em parar de viver por causa dessas coisas. Tá que seu namorado é um mané sem atitude, e que você teve tantos outros relacionamentos antes desse e que nenhum deles foram assim tão mais excitantes e felizes, mas e daí, vai parar de viver por causa disso, por causa dessa merda que vai acontecer ao longo de toda a sua vida? Tá bom que a sua amiga tão querida parou de ligar e dar notícias sobre a vida tão corrida e maravilhosa que é a dela, e que hoje em dia, sem uma mísera notícia daquela filha de uma vaca que se dizia sua amiga, você continua tentando entrar em contato com ela enquanto se debulha em lágrimas por não conseguir, e fica se perguntando "por que, por que diabos eu ainda me apego, me importo... Blablablá?".
   Tá bom que a sua vida tá uma merda e você só se fode, e daí? Então quer dizer que a solução infalível para todos os problemas (sejam eles afetivos ou não) é virar eremita e ir morar numa gruta, caverna, sei lá, completamente isolado? Se acalma e vai comer um pão de queijo mineiro, vai.





 Ágata é viciada em pão de queijo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Não aprendi

"Mania de esperar que as coisas sejam dum jeito determinado, por isso a gente se decepciona e sofre."

A crueldade é digna. Sabe como é, a vida é muito breve e eu choro pelo ano, mas por que? Não sou de ferro, nem malígna, muito menos impassível, como costumam dizer ou pensar. Apenas humana, com carne, osso, cabelo, atitude, altivez, esperança, burrice, todas essas coisas estúpidas que um ser humano no mínimo algum dia já teve eu tenho, só que não costumo me policiar e acabo por ter demais. Isso me esgota o ânimo. E tenho essa pequena coisinha de acreditar e idealizar mais do que deveria, quando nada sai como era esperado apenas prorrompo-me aos soluços, essa coisa de acreditar não é só acreditar, não é só pôr um pouco de esperança e esperar que se multiplique, é mais, e idealizar também não é tão fácil, idealizo com vontade. Mas então recebo a notícia de que não poderá ser de tal forma e não me sinto feliz em proceder dessa maneira, é caminho demasiado longo, como isso sucederá? Não perco as esperanças ou a burrice hereditária, nem deixo de fazer altas idealizações, contudo, continuo sem saber como lidar com a decepção quanto às mudanças de rumo que os planejamentos tomam por si mesmos. Me acostumo com certa ideia e então faço o possível para que tal ocorra, mas se ela não ocorre, se as coisas não tomam o rumo que deveriam tomar, se elas saem do controle, saio também, sinto o amargo. Não sei lidar com a perda. Não me ensinaram, não aprendi e tampouco tenho vontade para tal.


"Trata-se de uma decepção diferente: não tenho ódio nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Responda

Como seria se nossas vidas não fossem estas? Como seria se as mãos que me tocam fossem as suas? Como seria se nosso planeta de origem não fosse este, como seria se ele fosse qualquer outro? Imagine, invente um.
E se nada do que vemos for a verdadeira realidade? E se eu te dissesse que é só imaginar, que assim pode-se criar mundos e vidas ilimitados, que assim pode-se ir aonde quiser sem mover-se? Se eu te dissesse que da mesma maneira é possível transformar vinho em água salgada e qualquer vida amarga em fábrica de guloseimas?
O que você pensaria caso eu te dissesse que tudo isso que vivemos é mentira e que os corpos celestes são outros? Você acreditaria nas minhas palavras, nada mais que palavras, sinceras palavras de uma verdadeira mentirosa? O que você pensaria caso eu te dissesse que vida é ouro e ações são prata?


domingo, 26 de dezembro de 2010

Funciona?

É uma droga tremenda viver não gostando de ninguém, viver odiando as outras pessoas, é uma droga ninguém ser bom o suficiente, ninguém te cativar de verdade. É uma merda passar tantos anos, quase uma vida inteira, sem que uma única alma te encante pra sempre, sem que nada te faça amar de verdade, se apaixonar loucamente. É uma merda. Alguém me diz como é ter isso?
Na verdade isso já me aconteceu, mas não foi tão forte, ou sei lá, talvez eu tenha sido a culpada, não dando atenção, rebaixando, me lixando, faço muito disso. Sou dessas que quando tem o que quer de repente perde o interesse. Simplesmente perco o interesse e me sinto mal por isso acontecer, não costumo ter consciência se é ou não proposital, apenas perco o interesse e fico remoendo. É bem estranho. Que nem quando eu acordo normal, com o humor normal - digo, nem triste nem feliz -, mas do nada começo a querer ficar triste e passo o tempo me pondo pra baixo, dizendo e pensando coisas desagradáveis. É realmente estranho.
Eu queria mesmo que uma coisa dessas acontecesse num desses verões, ou num desses dias de inverno, tanto faz, só queria que uma coisa dessas acontecesse e eu me perdesse totalmente sentindo esse tanto de coisa bonita, que prende a gente e nos faz não pensar em mais nada, e tudo são flores e Amor. Eu realmente queria isso... Como deve ser olhar para alguém e sentir essa coisa tão grande e boa e sentir essa pequena e particular morte, como deve ser isso? Como deve ser sentir-se tão intimamente entrosado, tão dependente e não ao mesmo tempo, tão... Sei lá? Como deve ser olhar pra esse alguém e pensar claramente "estou mesmo na merda", mas não por amar essa pessoa, mas sim por amá-la tanto? Como é não gostar de verdade de ninguém a sua vida inteira e então amar tanto alguém? Como isso funciona? Funciona?


"É impressionante como eu não gosto de ninguém mas, de vez em quando, escapa um momento, um gesto, uma pessoa perdida e linda e única." (Tati Bernardi)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Então o que?

Vou driblar a letra de Natasha e fugir com dezoito, que tal? Não baby, não é nada disso, não é porque a vida sem você é uma merda fatal, não baby. Minha vulnerabilidade corrompe tudo o que tenho, preciso, preciso... Preciso de coisas difíceis, de coisas intangíveis, preciso de tudo, não me limito ao que tenho, quero mais, mais, mais, muito mais. É por isso que os relacionamentos acabam? Por não se contentarem com o que têm? Por quererem mais? Por cobrarem demais? O que é? Bom mesmo é viver de liberdade, baby, mas confesso que até isso enjoa, baby, baby, aquele dia em que você partiu deixou marcas, e não estou falando das concavidades que você deixou na porta principal, ao sair violentamente e jogar maliciosamente na minha direção aquela machadinha, que bom que tenho ótimos reflexos baby, senão... Então, deixou marcas, coitada da porta, coitada de mim. Ó, coitadas. Não tive coragem. Não baby, não tive, vão fazer dois meses que você partiu e somente hoje pela manhã troquei a porta por uma nova, e sem marcas, mas baby, não tive coragem de jogá-la fora, de amontoá-la na esquina junto ao lixo alheio. Merda, é uma merda, guardei a porra da porta dentro do meu quarto, do nosso quarto, e fico apreciando as marcas. Pelo menos as da porta são visíveis a olho nu.
Me desculpe pela minha fraqueza estúpida, baby, olhar para esta porta e rever tudo é muito... É. Por que nós não nos bastamos? O que nos faltou? Te cobrei demais? Você se expôs demais? O que foi que aconteceu?
Tudo isso é mesmo uma merda, não é? Eu te amo e você foi embora, se nem mesmo uma coisa dessas se sustenta, então o que?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta à Mafalda

Querida Mafalda.
 Meu bem, vê se te enxerga que tu não é cega, não quero saber da sua torpe existência. Para de me ligar, para de anunciar notícias sobre a sua vida para mim, cacete, não quero saber se tu emagreceu ou passou para as Forças Armadas, não quero saber se casou ou comprou uma bicicleta, nem se usou aquele leite em pó horrível pra fazer nescau, porque né, tu sabe que isso seria o fim-da-picada até mesmo para uma pessoa tão torpe como você, leite em pó não, isso não tolero. Você sabe. Leite em pó não serve pra nada, é horrível, tudo o que se tenta fazer envolvendo leite em pó sai ruim, bolo murcha, nescau fica aguado, tetas caem, crianças choram, o tempo vira, George W. Bush nasce, romances vão para o ralo, enfim, catástrofes acontecem. Por favor Mafalda, essa é a única notícia que quero saber de ti: usou a porra do leite em pó? Se a resposta for sim, mando atearem fogo à sua casa. Ou talvez eu mesma o faça, não há necessidade de envolver pobres inocentes nessa calamidade.
 Mafalda, sua estúpida, só me diga se usou o maldito leite em pó, é tudo o que desejo saber. Não me conte sobre seu gato, não quero saber o por que de ter ficado acordada até às 3 da matina, menos ainda se sua menstruação não desceu esse mês. Some, Mafalda, só some.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Outro clichê




   Não me esqueço de você, por mais que eu tente, por mais que o tempo passe, por mais que eu precise me desamarrar... Esqueço, esqueço mas imprevisivelmente me vens à cabeça. Hoje lembrei muito de você, não foi exatamente fácil, mas também não foi nada difícil. Lembrei de você e comecei a pensar em viajar, em sumir, virar poeira e me soprar pra longe daqui. Pensei em cumprir com uma coisa que te disse há uns 4 meses, pensei seriamente nisso, ainda estou pensando, seria a minha cara fazer uma coisa dessas mesmo sabendo que na volta para casa me estreparia pelo resto do ano.
   É uma sensação indescritível acordar e ter uma vontade súbita de fazer algo, e essa vontade se espalhar, tomar conta, e ser cumprida. Após acordar, você permanece deitado e fica calculando os prós e os contras dessa vontade louca, daí você pensa por um segundo, apenas por um segundo, “Ah, foda-se”, se levanta, pega as tuas coisas e sai de casa pra voltar somente quando a vontade estiver saciada. É realmente indescritível a sensação de desejo saciado.
   Dessa vez não acordei e senti essa vontade louca, estava estudando física lindamente, amo física, é uma das poucas coisas que amo mais do que a você, enfim, estava lá estudando, estava tocando “Ainda não passou” do Nando Reis, foi ela a culpada, me lembrei de você e dei uma remoída nas lembranças castanhas de nossas fingidas viuvezes. No meio dessa remoída lembrei daquela coisa que te disse em agosto sobre a hipótese de você ficar doida varrida e querer me esfregar pra fora da tua vida, você lembra? Enfim, pensei nisso e logo depois pensei em viajar, pensei em como seria bom voltar a fazer o que me dá na veneta sem explicar a ninguém, apenas fazer e depois arcar com as conseqüências, bons tempos. Pretendo voltar a esses tempos. Talvez. E pra abrir com chave de ouro, essa viagem seria sem dúvida a melhor escolha, mesmo que só dure um dia ou algumas horas.
   Depois de desejo fatiado e remendado, voltaria felizfelizfelizlizlizliz. Senão dezembro, senão janeiro, fevereiro. 

   Quem liga para o Carnaval?
   Escrevo clichês.









"Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!

Eu não suporto ver você sofrer
Não gosto de fazer ninguém querer riscar o seu passado
E o que passou, passou
E o que marcou, ficou
Se diferente eu fosse será que eu teria sido amado?
Por você, por você"
 
(Ainda não passou - Nando Reis)

domingo, 5 de dezembro de 2010

No cu delas



 


"A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar, sabe quando vai dar?"


Lindo, né? Eu digo que te amo, tu afirma que me ama e saímos de mãos dadas por aí. Lindíssimo, lindíssima cena de filme. O Amor é uma coisa maravilhosa, irmão, maravilhosa, até que te despedaça, até que te crava uma estaca pelas costas e te estraçalha forever, o Amor é mágico, mágico pra caralho, te destrói em segundos. Amor? O que é o Amor?
Eu te digo, te amo meu amor, te amo muito, e tu rebate dizendo que me ama também, que me ama muuuuito, muito, muito, que é pra sempre. Pra sempre!? As pessoas dizem que é pra sempre, eterno, forever. No cu delas. No cu apertado delas! Amor é o caralho. Pra sempre, no cu de quem diz, Amor não é assim, sai daí, bando de animal. Porra.
Lindo. Tão lindo que não suporto todo esse sentimento cheio de si, tão cheio, mas tão cheio, mas não para de crescer e absorve, absorve, e te engole pra dentro dele, e tu se perde numa coisa maravilhosa, mas não dura, não é pra durar. Já começa com fim premeditado. E você sai disso tudo arrebentado, esfolado, com fraturas expostas, você sai horrível, cuspido, triturado. Quando você sai.
Cara, Amor é uma coisa muito complexa, muito intensa. É coisa sensorial demais pra mim, me arrebento sempre, sem exceção. Amor é uma auto-destruição aclamada. Todo mundo quer amar e ser amado, coisa sem igual, essa tortura coletiva. Pra que amar? Pra que pedir para ser iludido? Pra que se desgastar com essa merda moribunda? Pra que pedir pra tomar no cu? Amar não é vida. Meu chapa, o Amor não existe, e no cu delas que é pra sempre, no cu apertado e preto e sem pregas de quem diz que é pra sempre, porque, oras, pra sempre é nunca mais.


"Em movimento, andando por aí, perdendo ou ganhando, levando porrada, tentando amar."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Minha poltrona

Oi, lembra de mim? Estava contigo quando comecei a deixar-me sair de dentro de mim, do meu profundo fundofundofundo como se estivesse afogada há eternos segundos de longos milênios. Você lembra? Tava sempre comigo, sempre me seguindo, me acompanhando e questionando tudo, nunca me deixava sozinha ou cabisbaixa. Onde você tá, cara? Me liga, me manda uma mensagem, um scrap, um e-mail, ou um tweet mesmo. Se comunica comigo, vamos nos conectar mais uma vez mais, me diz como tem andado, com que pernas, com que pensamentos. Lembra daquela lagoa? Lembra de quando íamos para lá e nos divertíamos à beça? E daquela noite sob as estrelas, aquela única, em que acampamos todos juntos numa mesma barraca?
Nunca te esqueci, não me dói, mas gostaria que você lembrasse mais de mim, você foi um bom amigo-amante, quase sempre constantemente quieto e calado, mas um bom amigo-amante.
Melhor que não lembre de mim àquela época mesmo, eu era tão imbecil, tão nova e idiota. E você... Ah, você era você, nós fomos nós, não me arrependo de nada, nem da vergonha ou da humilhação. Agora já passou. Agora você é homem formado e mora tão longe e truncado que nem sei como chegar, agora você continua você, sempre você, e eu continuo me definindo e redefinindo a cada instante, sempre nessa marca registrada de discordância e confusão, sempre eu, eu, eu.
Aliás, não sei o por quê de o assunto ter ido parar em você, cara, não tem nada a ver contigo, nada a ver com os nossos passados terem-se cruzado inexplicavelmente naquele fim-de-Brasil.

Agora sim.
Cara, você invadiu a minha vida assim sem mais nem menos, sem pedir nem nada, você simplesmente arrombou a porta da minha vida com o teu trator ultramoderno e se instalou na sala de estar, na minha poltrona favorita, e se recusou veemente a sair. Sério, você é mesmo muito insistente e circunspecta. Ou dá ou desce, simples assim, ou prefere que eu desenhe para seu melhor entendimento? Cara, você arrombou a porra da minha porta e se apossou da minha porra de poltrona favorita. O que você quer com isso?
Sério, você chegou de mansinho, bem como quem diz não querer nada, aí começou essa invasão, agora tu não sai mais, vai ficar e se hospedar até quando? Já sabe que por aqui ninguém costuma durar por mais de três meses, quando duram três meses.
Cara, gosto muito de você, muito, não me pergunta, só aceita. Mas deixa eu sentar na minha poltrona, ainda sou eu que mando nessa porra.
Obrigada, querida, você é muito gentil.


"E as rosas ficaram desapontadas.

— Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem eu pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa." (O Pequeno Príncipe)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alba del Rojo

Alba del Rojo era infalível na arte de adivinhar e esbarrar em colunas d'água, ela jamais sentia temor ao descobrir segredos escondidos sob tapetes e sofás. Acordava sentindo-se tonta e com dores na cabeça e coluna. Alba era de estatura mediana e corpo delgado, olhos de cigana traiçoeira, pele macia e cabelo arroxeado, desde pequenina com altas inclinações para os mistérios de Pandora e alucinações taciturnas.
Alba, mulher madura e letrada, independente e ávida. Aos 26, pariu mais bela criatura, Abella Rojo Delasarmenta. Alba, mulher sensual e incorruptível.
Aqui estou, desolada do mundo, assistindo a vultos convulsos, tempestades rotineiras e à vida inexorável. Aqui estou, montada na mortandade intemporal e na irreal e nefanda estrutura de solidariedade e Amor. Sou egoísta e vôo alto com os pés fincados, sou egoísta e durmo profundo de olhos abertos, sou egoísta e me permito sonhar com amores cansáveis e aventureiros, livres de delimitação e nobres orgasmos esquálidos, fingidos e dolorosos.
Eu sou minha única mulher. Me tatuo a marca do tempo.








Eu quero mesmo é alguém que me faça mudar completamente de opinião. Que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão. (Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Do que você tem desistido ultimamente?

Ultimamente, tenho aberto mão da minha vida, sabe, de sair, viver, descobrir, sorrir, sentir. Tenho vivido tão para dentro, mas tão para dentro, que, sinceramente, não lembro como é viver para fora. Apenas sinto saudade de coisas que não foram, coisas que sonhei, que aspirei com força, que moldei com Amor e carinho, sinto falta da ausência que não foi, que não será jamais.
Ultimamente, venho sentindo esse cheiro velho, esse cheiro costumeiro de lembrança engavetada, de cabelo que foi preso molhado, de dia seguinte que não chega. Sinto esse cheiro de lembrança esquecida e jogada fora, que está me abandonando aos pouquinhos, que está se desacomodando de mim. Sai cheiro, sai de mim, me deixa pra trás, me deixa pra frente, sai de mim cheiro inerente.

Antes eu pensava que não seria possível uma coisa dessas vazar, mas aconteceu, talvez fosse feito de poeira, tapar com a peneira não deu certo, os raios fugiram, a fumaça subiu, os sinais sumiram. Nós sumimos um para o outro, deixamos, de quando em vez, uns vestígios de passagem aqui e lá, nada mais que uns vestígios muito mal feitos e derramados. Éramos tolos.
Agora eu penso o mesmo de antes, não é possível uma coisa dessas vazar, se vazou, é porque não era uma dessas coisas. Só isso... Há sempre a Tequila no final de cada estação. Na falta de Tequila há sempre a Natasha, ótima substituta nestas horas sem fôlego de vida.

Ultimamente, continuo vivendo para dentro, um pra dentro mais externo e igualmente turbulento e agitado. Ultimamente, ah, ultimamente é olhar com as mãos e sentir o aroma com a boca, ultimamente são tato e manha, fadiga e medo.
Ultimamente é momento único, etéreo e banal. Agora deveria ser hora de alguma coisa.

No momento tenho jogado fora um bocado de chances desejadas, no momento estou sendo o outro pouco que sou, quê quis você? Você me quis que eu bem sei, você me quer que eu tô sabendo, e nem adianta fazer aquelas caras e bocas de desdém, nós sabemos que tu me quer.
 Engraçado mesmo é que você não vem buscar o que é teu. Ficar chupando dedo deve ser mais cômodo.
Já disse que admiro atitude? Levanta desse banco e diz na minha cara, tá mais do que na hora, ficar esperando não é atitude que se preze.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Meus, só meus.

A gente ri, a gente chora, segunda-feira a vida externa-padrão reinicia-se. A luz da memória apaga e acende, apaga e acende, as portas do armário abrem e fecham, abrem e fecham.
 A boca dela também abre e fecha, abre e fecha, e eu fico olhando, só olhando.

É que ela é tão intocável que me retém distante e perto, só olho e ouço, às vezes invisto... Mas tudo a longas distrações, longos espaços, tudo ocularmente insensível, informal e ponto. Mas só ocularmente. É que ela é intocável e ninguém é bom o suficiente, na verdade, nem eu. Menos ainda eu.

Olha só o que se passa, crio os meus problemas mesmo quando eles são improváveis, não vivo sem eles, meus problemas, meus, meus, meus, todos meus. Veja bem, estava tudo quase ótimo, aí eu resolvi mudar o curso das coisas, só isso! Adivinha no que deu? Merda. Cor de merda, textura de merda, cheiro de merda, forma de merda, merda pura, puríssima.

E se tudo regressar, já pensou nisso? Serão mais X horas de Z dias, de Y semanas, por N meses. Parabéns, você é a melhor, grandessíssima fazedora-de-merdas!
A boca vai abrir e fechar, ficarei apenas observando e ouvindo, pensativa, maquinando, medindo os prós e os contras, sensacional essa habilidade inata do ser humano, adoro muito tudo isso.
Pensando bem, ela não é tão intocável assim, talvez queira ser, mas não é, muito pelo contrário.

Ainda falta bastante para que tais segundas-feiras recomecem. Amém? Não.



"Será idiota recitar Vinícius de Moraes: 'que seja infinito enquanto dure'. A despedida não é lugar para poesia." (Fabrício Carpinejar - O Amor no Colo)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Franquezas

Estranheza é necessário e fraquezas não são motivo para escárnio. Te falo francamente: não sei dar continuidade. Não sei, nem nunca soube.

Sabe esse sentimento perigoso de desacato e vigarice? Me atacam. Me transformam. Não me pergunte como consigo me olhar no espelho todos os dias. Tento, tento enxergar uma coisa que não é, que está lá no fundo, presa. Todas as manhãs é essa mesma ladainha, olho, procuro, não acho, tento de novo, não resulta em nada, "tente novamente mais tarde, volte sempre".

Estupidez é necessário, demência e sonsice. Sensatez, malícia e manha também.
Outro empecilho: algumas, para não dizer tantas, pessoas têm imã ou dedo podre, que seja. Tem que ver isso daí, problema sério.
Fraquezas todo mundo tem, a diferença mesmo está em como cada um lida com as suas, mas como proceder com quem não lida? Como vou proceder? Fraquezas, para que vos quero... ?


A carne é fraca, a carne é fraca, a mente sabota, o coração transborda. A carne é fraca e fraudulenta.
Fraquezas e franquezas trocaram alianças?
Adoro esse sentimento corrosivo de desacato e vigarice. Preciso urgentemente domá-los.







"Liberdade na vida é ter um Amor para se prender." (Fabrício Carpinejar)

domingo, 21 de novembro de 2010

Vai, criança.

Porque nem sempre a lufada é boa,
porque nem sempre a surpresa é bem vinda,
porque nem sempre sabemos lidar com o que desejamos ou temos.

De dia e de noite, solidão a dois também mata, mas não te perturbes, caso não tenha sido dessa vez, poderá ser numa outra, vai depender da sua vontade. Na verdade, esperar somente por flores e cores soltas é um erro. Mas se isso te agrada, faça-o então, só não diga mais tarde que não avisei.

Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas, sei que passam várias porcarias, idiotices, putarias, preocupações, enfim, coisas e mais coisas, e aí? E se você não tem um ou uns relacionamentos felizes e satisfatórios, vai ficar cismado? Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas. São bilhões de pessoas. Bilhões.

Porque não há fantasma que dure para sempre, nem chuva que jamais deixe de chover,
porque viver também é recordar.

E se você não se deixa subir, alcançar, cair e se estatelar, se reerguer e superar, então faça um grande favor para o mundo, se mata.
"Recordar é viver" não significa que deva se tornar um museu de coisas perdidas e insuperáveis, nem um mausoléu de rancores, apenas aprenda a se conformar e seguir em frente.

Viver também é ignorar para superar, se for preciso.
Viver não é uma coisa bela sempre, só quase.
Vai viver.
Vai subir, alcançar, cair e se estatelar, se reeguer e superar.
Vai viver, criança, para de perturbar.


sábado, 20 de novembro de 2010

Eftdpejgjdboep...

Fv tfj, fv tbcjb rvf wpd^f ob~p qpefsjb tfs bttjn ub~p mfseb! Qsjodjqbmnfouf efqpjt efttb v´munb ufsçb, ob~p qsfdjtfj pmibs qbsb p tfv tfncmbouf, op fybup jotubouf ujwf rvbtf dfsufab.
B wjeb f´ nftnp Cfmb! Nvjup Cfmb, Cfmj´ttjnb!

Preciso dizer, de concreto, nem as paredes da minha casa. Mas...



"And it's driving me mad
It's all over, all over, all over my face"
(I Want The One I Can't Have - The Smiths)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A rede

Deitado na grama fria, olhou perdido para o céu e respirou fundo, absorvendo cada sensação, cada esperança, e pensou em como era bom sentir-se assim, independente e satisfeito consigo mesmo. Dormiu e sonhou sonhos gulosos e intangíveis, cheios de mistérios e fantasias carnais, sonhou sonhos sonhados por homens solitários e comuns, de vida rotineira e sonhos intragáveis.
Ela estava balançando a si mesma em sua velha rede remendada, balançava e balançava, a brisa acariciava-lhe o rosto e sentia-se viva e capaz de tudo. Podia sentir o começo, podia ouvir, podia, podia... E não parava de embalar a si mesma na velha rede remendada. Balançava e balançava, como se estivesse balançando sua própria vida, balança, balança, calmamente, empurrão por empurrão, brisa por brisa, sonho por sonho...
Deitado na grama fria, ele sonhou com uma moça que se balançava numa velha rede remendada e esta, ao adormecer, sonhava com um cara que estava deitado numa grama fria e olhava perdido para o céu, absorvendo suas impressões e este, sonhava sonhos ininterruptos e intragáveis.
Gostaria de ter aquele homem para si. E embalá-lo consigo, em sua velha rede remendada.



"Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo."
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eu borboleta

Sou uma novela mexicana. Sou uma novela mexicana bem explícita e fui tirada do ar por conteúdo inadequado, violência demais, palavreado chulo demais, nudez demais, mutilação demais. Tudo demais, minha novelinha mexicana tosca é excessiva, mostra demais, diz demais, exala demais. E agora foi tirada do ar, irônico, não? É tudo o que pedem e é tirada do ar, cortada, censurada num golpe só.
Mas que novela é essa de uma personagem só, né? Ridícula, não tem estória, não tem trama, não tem nada. Mas sou novela mexicana, daquelas bem bregas e dramáticas ao extremo. Nasci novela mexicana e morrerei novela mexicana.

Sou praticamente um "Canavial de não-paixões".

Proibíram a mim, novela mexicana, de praticar a quem quisesse, todas as ínfimas ações - e transgressões -, de que tenho posse. Como sempre não dou lucro algum aos meus produtores. Mas enfim.
Só me resta reeditar todo o roteiro e seguir em frente... Isso dá medo e é doloroso, aquelas personagens tão gêmeas, tão completas... É, tá, tchau pra elas. O novo roteiro implica mudanças drásticas, foda-se, mesmo assim manterei o palavreado chulo, é minha marca maior, talvez não a única, mas é a mais perceptível... O palavreado chulo, a falta de pudor, a sacanagem explícita citada e feita - epa -, a liberdade de expressão, os abandonos sem explicação, a raiva endemoniada, enraizada além dos poros, o chororô e a tristeza desmedidos, o raciocínio primeiro inapto, a frieza descomunal, a total falta de confiança e segurança. São tantas as marcas...

Contudo, de novela mexicana incorporo em borboleta. E o que há de tão surpreendente e magnífico em ser borboleta além de me metamorfosear? Voar pra bem longe, para onde não possam me ver? Não ter ninguém? Ser "livre"? Livre de que? O meu passado me persegue, o meu eu não me deixa em paz. Mas se borboletas não têm parceiras, então talvez eu seja mesmo uma borboleta. E talvez um dia eu realmente suma, voe para bem longe, bem longe, e não dê mais notícias, e nunca reproduza, e nunca seja feliz, essas coisas de borboleta amaldiçoada... Mas ainda não sei o que há de tão esplendorosamente sensacional em ser borboleta, até agora só me deu desgosto e mais insegurança.

É muito estranho a maneira como certas coisas tão pequenas me atingem de forma tão grande. E é aí que me deixo rolar... Nunca vou esquecer dessa conversa.


"Há muitas razões para duvidar e uma só para crer."
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Momentos "nostalgia"

    Sinto falta de quando eu era criança, de quando estava triste e minha mãe me ninava enquanto eu chorava, fazia "shhh shhh" no meu ouvido e me dizia "vai ficar tudo bem", e mesmo que não ficasse - que fosse, eu jamais acreditava que fosse ficar -, eu podia continuar chorando até pegar no sono sem sentir culpa por isso. Hoje, ainda posso chorar, chorar, chorar muito por todos os meus problemas e decepções, mas não faz sentido, não vai adiantar chorar por todas as insatisfações e não haveria como fazê-lo sem sentir culpa, a não ser quando é noite, vou dormir e não é mais possível controlar, aí não há culpa que cale, apenas alívio...
    Mas não sou mais criança, não posso mais chorar por tudo e ter alguém fazendo "shh shh" no meu ouvido sem sentir vergonha.
    A vida é barro seco e minhas lágrimas são de pedra.










 O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

domingo, 17 de outubro de 2010

Instants

Depois de tudo o que passamos, de todos os nossos planos, de todas as nossas aventuras, acaba assim. Você não me abraça mais ao dormirmos, deita-se silenciosamente, meio afastada e virada para o outro lado. Parece que não estou mais aqui. Dia após dia, noite após noite, semana após semana, durante quinze anos fomos felizes e inseparáveis, mas agora, logo agora, que perdi meu seio, que perdi um pedaço carnal de mim mesma, você resolve arrancar de mim minha segurança, minha estabilidade... E se eu não quisesse que isso se destruísse? Não conta? Depois de todos esses anos... Parece que não estou mais aqui e que você não quer que algum dia eu já tenha estado, não me olhas mais, e quando o faz, não há doçura, nem paixão ou alegria em ver-me, é tão frio e abominável.
Desejo que o lugar para onde está indo seja melhor do que este, desejo que você se realize e que nunca se esqueça de mim, de nós. Não pense que sou cruel por isso. Sou pior, muito pior do que isso. Desejo que você jamais esqueça o quanto uns dias fomos as criaturas mais felizes que poderiam existir e que você estragou tudo com o seu egoísmo, com o seu orgulho infinito e com o seu escárnio desmedido. Desejo com a força de mil sóis que você viva, viva muito e muito bem, que tenha saúde o suficiente para ver todos os seus amores desfalecendo, morrendo, apodrecendo e se perdendo na memória do tempo.
E no último dia de vida, quando estiverdes arfando a última brisa, lembrará de todo o seu mal, de toda a sua insignificância, e já será tarde para tudo. Sozinha e infeliz. Que pena.
Depois de todas as cópulas, de toda a vivência... Nada valeu a pena, nada foi frutífero, nada sucedeu em coisa alguma. Nenhuma forma de amor é válida.



"O cruel vinha de que o silêncio também seria inábil e farposo,
contudo educado, então feria, e não pense que vou esclarecer
quem, facilitando a cegueira, pressa ou tontura: O cruel era a
palavra verbalizada, e o verbo era o mal? Mas o silêncio idem..."
(Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nisso tudo

Sabe? À medida que o vento ultrapassa a locomotiva do tempo, perde-se o imperdível e vislumbra-se o nada, o vazio, o vácuo tocável. Segundo consta na memória, há algo não consumado nisso tudo.

— Nisso tudo?

— Tudo?

— É, tudo o quê?

— Tudo, nada. Não importa.

— Nada? É universal?

— Não sei ainda, para mim é tudo igual...

— Me abraça.

— Te abraço.






De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
(Poética - Vinícius de Moraes)

sábado, 18 de setembro de 2010

Segredos de liquidificador

Eu ouviria seus suspiros sentiria suas batidas seu corpo veria seus olhos e veria sua felicidade sentiria seu Amor me tocando com pressão você obteria tudo de mim nós ficaríamos paradas andando falando em silêncio caminhando na luz da noite e sentindo o prazer do silêncio que diz tudo sem tremer onda sonóra alguma e ouviríamos nossos silêncios amorosos e singulares até o amanhecer entardecer anoitecer começo e recomeço então eu te abraçaria e beijaria tanto tanto tanto que ficaria sem fôlego mas não pararia jamais jamais te diria segredos de liquidificador e sairia sem dizer nada sem avisar sem celular e voltaria tarde tarde da noite ou no dia seguinte pra te deixar louca louca de saudade de medo de desespero de mim não te deixaria sair pela porta nem pela janela sem voltar para sempre nunca mais não te deixaria por nada.
Você ouviria meus sussurros e cantaria minhas tristezas infantis e gritaria minhas tolices você não-sei-o-quê não-sei-o-que-lá não se cansaria da minha cara de quem comeu e não gostou diria para vermos a chuva cair desenhando sólidos de revolução no vidro da janela da sala do quarto no espelho do banheiro me mostraria suas incertezas inevitáveis depois correria de mim de você mas voltaria não faz isso de não voltar porque se for preciso durmo ou não durmo de janelas e portas abertas só pra você entrar me abraçar beijar Amar chorar e superar quando você voltasse em uma duas ou três infinitas noites turbulentas eu estaria louca louca louca de saudade de medo de desespero de você seria minha minha só minha toda minha cada parte sua.





"Eu quero me chamar Mar você dizia e ria e ríamos porque era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e você dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos você não vai muito além desses príncipes pequenos."
(Caio Fernando Abreu)

domingo, 12 de setembro de 2010

Km

Não gosto desse tédio progressivo, nem dessa rotina evitável. Mas estamos aí. Não tenho mais ideias, não tenho mais palavras prontas, e quanto mais forço essa barreira imaginária, mais perco o que não tenho mais.

Meus dentes doem e a noite não tem fim. Quero correr, correr pra bem longe e sumir. Cadê as minhas forças para isso? Meus dentes doem, minhas pernas doem, minha cabeça dói, tudo dói. As paredes rangem, desmoronam, não tenho mais teto, não tenho mais chão. Nada.
Ah, porra, não tenho nada que seja material... É, isso. Minhas ideias evaporaram e minhas palavras prontas também. Amém. Vou viver de outra coisa, rodar bolsinha na esquina, vender bala no sinal, que se foda, na verdade, estou pensando em abrir um puteiro bem chique e cultivar uma plantação de maconha, estou feita. Mas se nada disso der certo viro hippie mesmo. Que seja, a vida é pra se viver, seja como for.

Porra, alguma merda na minha vida tem de dar certo e vai dar. Vai dar. Meus dentes ainda doem, desgraçados. Ando cansada, cansada da minha cara no espelho, cansada dessa casa, cansada do meu espírito cansado. Caralho. Caralho, quero viver, viver. Respirar, ver, abraçar, chorar feliz, rir, sonhar, concretizar, sorrir, andar, sentir, sentir, sentir.
Meu calendário está todo rabiscado, os dias que sobram pertencem ao outro ano. Meu relógio pifou, parece que não suportou toda essa carga. Mas meus dentes continuam doendo.
E esses quilômetros também, ah esses quilômetros, eles continuam entre nós.




"Talvez isso mude. Talvez você entre na minha vida sem tocar a campainha e me seqüestre de uma vez. Talvez você pule esses três ou quatro muros que nos separam e segure a minha mão, assim, ofegante, pra nunca mais soltar. Talvez você ainda possa pular no rio e me salvar."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Beijar

    Tenho que te dizer e te digo agora e não antes e nem posteriormente, estas palavras soltas e agitadas que te jogo num passe só. Pense rápido. É que digo agora, preciso fazê-lo já, apenas já. É que sinto imensurável diferença entre "pegar" - ou ficar, que seja - e beijar. Deixe-me explicar, vejo "pegar" como algo tão público e tão desimportante, mas beijar vejo como sendo o oposto, um ato tão bonito e íntimo, tão calmo e prazeroso... tão... Puro, completo por si. Penso assim, porém, não desde sempre, sinto-me até mal quando me vem o pensamento de ficar com fulana ou beltrana, sabe?... Expôr ainda mais algo meu, tão particular, distribuir assim. Compartilhar essa minha intimidade com mais uma qualquer? Pra quê?
    Beijo é divino, as pessoas deveriam mesmo considerá-lo sagrado.
    Eu considero, e se não começa com um beijo bom, mas bom mesmo, já era. Não vou fazer a menor questão de tentar uma segunda vez, nem que essa pessoa seja putamente linda e maravilhosa e o meu sonho de consumo mais enlouquecedor em carne e cores, foda-se. Dispenso logo. Essa é uma das raras decepções que verdadeiramente me abala de cara para nunca mais; que sempre me atinge fortemente a cara, quebrando todos os dentes das minhas expectativas, e  a boca do estômago da minha afeição.





"Beijo é o 'fósforo aceso na palha seca do amor'."

"Eu sou apenas um beijo da boca do luxo na boca do lixo."
(Cazuza)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Saudades e silêncios

    Ontem, tarde da noite, fiz uma coisa por você, e ignoro a precipitação desse ato. Descartei de vez quase um ano de sonhos e planejamentos, é duro lidar com memórias jamais materializadas, na verdade, só pensar brevemente no que poderia vir a ser e agora de fato não o será, me dói feito uma úlcera incurável.


"Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante." (Carlos Drummond de Andrade)

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!” (Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)

"Não existe morte pior que o fim da esperança." (King Arthur)




    Mas é meio insincero dizer que o fiz somente por você, fiz por mim também, minha vida ia se moldando àquilo e esvaia-se por meio de uma tela e de planejamentos incansáveis. Enfim. Digo-lhe, também, que não posso competir com esses órgãos aparentes e que me são distintos. Um arquegônio é um arquegônio e um anterídio é um anterídio. É como comparar as vantagens de se ter um gato e as vantagens de se ter uma geladeira, não tem absolutamente nada a ver, são coisas totalmente diferentes.
    Me contenho nessas umas horas mergulhadas em silêncios esparçados e nada diminutos de quando em vez, com maior frequência do que eu desejaria. Esses silêncios são tão infinitos quanto nossas menores e mais importantes falas.

 
 
"Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."
(Fernando Pessoa)

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."
(Martha Medeiros)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Por obséquio.

Mas ainda bem que a senhorita é demasiado racional, desta forma não me fora preciso, como eu havia pensado, arreganhar todas as minhas portas e janelas, revelando tanto por tão pouco, por um motivo desmotivado e excepcionalmente externo, tosco e imprudente...  Poderia ser uma ótima atitude, ou um terrível infortúnio. Todavia, penso que não cabe a mim julgar, nem a qualquer outro indivíduo, não excetuando a ti.
Apenas transmito por intermédio deste, que há certas cores que devem continuar contidas... Ou talvez não devam ser diretamente condicionadas.
Mas estas portas e estas janelas... Peço-lhe apenas que não as arranque abruptamente. Nem tudo se é reparável, incluindo estas minhas portas e janelas, e essas belíssimas cores que todas conservam. Por obséquio, não as desperdice aos olhos alheios.





"Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável."
(Franz Kafka)

domingo, 22 de agosto de 2010

The black rose came back

Dilacerou-se inutilmente, dilacerou-se por coisas medíocres, por pessoas sem importância. E que tem o agora? Encontramo-nos no século XXI, mas que diferença faz? Século de transições, nada vai acontecer de intenso, nada. Nada que se faça irá servir de mérito, nem de tendência. Dilacerar-se inutilmente é o que se pode fazer desligando-se do resto do mundo, mas dilacerar-se por si só, sem motivos exteriores. Nada vai mudar nada para direção nenhuma. Estamos no XXI, mas somos do XX.
Viver de emoções? Viver de Amor, de sentimentos que se apagam? Viver de outrem? É tão imaterial, inconcreto, incerto... Como se fiar disso?
Nada vai mudar nada nesse século oco. Tudo o que tinha para acontecer e ser inventado, já foi? Então é isso, acabou? Não sobrou nada? Que desfavorecido.
Aceita-se qualquer coisa, até guerras civis, ou uma nuclear, só pra agitar um pouquinho as coisas, anda tudo tão chato e tedioso. Como Alvares de Azevedo se permitiu reencarnar nesse século seco?
Para que, então, continuar escrevendo esse monte de excremento, se não vai dar em lugar nenhum? Não vai mudar nada, não vai fazer diferença, então foda-se. Para que insistir num poço? No fim, há duas possibilidades, 1) Água e escuridão, ou boia até morrer, e sem enxergar nada, ou afogar-se-á de uma vez, 2) Sem água e ainda assim escuro, caiu, bateu, morreu. Não quero insistir num poço.
E depois, qualquer dessas linhas são ruins, ou nasce com esse dom, ou morre vivendo do dos outros.



"Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
"Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
"Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
"Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro 'me acho, me agacho, fico ali'.
"Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
"Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.

"Se pudesse, hoje, varria, isso mesmo, varria as pessoas todas com vassoura, como se fossem ciscos.
(Clarice Lispector)