"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

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essa metamorfose ambulante...

sábado, 1 de outubro de 2011

Amor não é qualquer porcaria



  Não sei o motivo, não sei de nada. É por que eu tô ficando velha? Mas tenho nem 30 anos... Só sei que a minha vida parou, não durmo mais, não estudo mais, é raro eu ler alguma coisa, também não saio... Só faço ficar aqui, parada nessa sala, sentada nesse sofá. Não sei o que é isso. Pode ser tédio, vazio, desinteresse, preguiça... Vazio? Não, vazio não. Mas estou atenta. Atenta às sensações. Sei que não estou sentindo nada, absolutamente nada. Então por que eu sinto como se alguma coisa estivesse errada, do avesso?
  Não, eu não estou sentindo nada, nem vazio, nem como se alguma coisa estivesse errada, nem essa dor. Menos ainda essa última. Viver é só isso? Não. E isso também não é o Amor. Isso é o ENEM se aproximando, isso sim, estão explicadas a inércia, a insônia, a indiferença, o desinteresse pelas novidades.

  Vou falar do Amor (ó, novidade!). O que é o Amor? O que essa ínfima palavra costuma significar? Como é possível expressar tal sentimento tão grandioso por intermédio de uma única palavra tão pequena, composta por apenas quatro letras? É possível expressá-lo todo em apenas uma palavrinha sem que se pratique ação alguma? Falar de Amor cansa. Falar de Amor arde.
  Vou tentar contar não o que é o Amor, mas a minha visão de como ele é. Para mim, em toda a minha ignorância, o Amor (escrito assim mesmo, o "A" em caixa alta) não é uma coisa simples, não tem como encomendá-lo numa loja, pagar com um cartão de crédito, ou amarrar uma fita. Para mim o Amor pode ser cultivado, pode florescer, pode crescer... Opa, "peraí", mas afirmar que ele pode crescer seria afirmar que ele também pode decrescer (como toda a lei vigente...), tal qual afirmar que ele pode florescer, afirmando isso afirmaria que ele pode desflorecer, morrer, murchar... Sendo que em minha concepção o Amor não termina, posto que há apenas uma explicação ao terminar: nunca existiu, e assim é afirmado que ele não pode nascer e crescer. Mas então se o Amor pode ser cultivado, mas não pode nascer e crescer, ele não existe (...!), dizer isso seria dizer que a abiogênese (que significa: não origem biológica; estudo sobre a origem da vida a partir de matéria não viva) é verídica! Mas se for pensar por esse ângulo, seria preciso admitir que o Amor pode ser tratado como uma parte do corpo humano, que pode ser podado, curado... Seria necessário admití-lo como questão biológica, e também o caso das sexualidades (que também não é questão de cura, de tratamento químico, amputação, ou sei lá o que), não existe essa coisa de "virar" homossexual, "virar" hétero, ou é, ou não é. Mas dessa forma seria necessário admitir que uma pessoa que gosta de determinada coisa não pode simplesmente acordar num belo dia de primavera e ter vontade de experimentar algo "novo" e saciar esse desejo e gostar e continuar com a vida dessa forma. Ou seja, seria preciso admitir milhares de outras milhões de coisas e isso não teria fim, já que é um ciclo de (novamente, milhares de outras milhões de coisas) sei lá quantas redes, seria preciso, além de entrar no campo da ciência, da biologia, entrar no campo da filosofia, enfim! Concluindo (...), seria, antes de tudo, necessariamente preciso admitir que o ser humano é incapaz de evoluir, de mudar, de se estender. O que não é verdade. Essa é, digamos, a base da vida do ser humano: evoluir. Tudo o que conhecemos provém de uma (ou umas) "evolução". A ideia de algo maravilhoso e desejado que não pode nascer e/ou crescer, e portanto não pode diminuir e/ou morrer - ou seja, essa coisa é pronta, sempre esteve presente, viva -, essa ideia de Amor que preexiste é realmente linda, muito romântica, logo (e isso faço contrariadamente), não existe, é uma ideia puramente fantasiada, justamente pela sua beleza, pelo seu romantismo. Eu gostaria muito de poder crer que o Amor está lá, sempre vivo, onipresente, imponente, que ele é imortal, que ele é infindável, mas não gosto mais ainda do fato de que dessa forma estaria pensando numa coisa tão bela como sendo nada mais que um congelado, que vem pronto "ah, é só pôr no microondas por cinco minutos e tá pronto!", não, isso é inadmissível. Eu gostaria muito de continuar crendo que o Amor não tem começo e fim, mas acabei de convencer a mim mesma que sim, ele tem começo e tem fim, e ótimo, melhor ainda, agora posso pensar no Amor como na própria vida, tem uma duração, é feito pra acabar, isso quer dizer que cada minuto de Amor é precioso pra caralho e não pode ser disperdiçado nunca - bem, pelo menos para mim. Tudo o que tem uma validade é precioso, pessoas que têm o tempo de vida contado, num geral (...), vivem, diga-se de passagem, melhor, de maneira mais intensa, que o Amor seja assim também. Então voltemos: para mim o Amor pode ser cultivado, pode nascer e pode crescer (e aqui admito todas as vertentes que já citei). Para mim o Amor é construido detalhadamente, mas não apenas dessa forma, Amor é um quebra-cabeça, beleza, mas não é só isso. Para mim Amor não é coisa calma que entra pela porta da frente e senta no sofá como se fosse visita nova, envergonhada, não, pra mim Amor é coisa louca, avassaladora, não é coisa de domingo, é coisa pra-todo-dia, caso contrário não seria Amor, seria apenas mais outro sentimento qualquer. Para mim Amor não é coisa pouca, é enorme e enlouquecedor, Amor não é como um sapato que se não tem a cor que você queria "ah, fico com esse mesmo", puta que pariu, né!? Amor não são raspas e restos, e se não for único, que sejam muitos, que sejam tantos que se perca a conta deles! Para mim é válido morrer tentando, é válido morrer experimentando estes e aqueles Amores bárbaros, arrasadores, ingênuos, virgens, tolos, inteligentes, sensuais. Para mim Amor não pode ser coisa simples, sentimento nenhum é simples, muito menos o Amor. Pessoas também não são simples, ou fáceis, nem relacionamentos. Uma das maiores besteiras de todos os tempos é querer imbuir a ideia de que Amor é simples, é fácil, é isso e aquilo, é assim e assado, que Amor é como fazer compras no supermercado "pode pesar direto no caixa". Amor não é coisa fácil, é coisa complexa.
  Para mim o Amor é tanta coisa que não cabe aqui. Amor é fadado, é que nem flor, floresce, cresce, reproduz (ou não) e morre, e é necessário regar e dar muito carinho e atenção todo o tempo, senão não cresce, não reproduz, morre prematuro. Amor não pode ir sozinho, não é que nem quando você escolhe algo de um cardápio e na pressa acaba indo qualquer coisa sem acompanhamento: Amor exige ação. Só Amor não há santo que aguente, amar e ficar deitado na rede é muito fácil, falar é muito fácil, fazer é que são outros quinhentos.
  Amor é lindo e dá trabalho, muito trabalho, Amor não é para os fracos. Só ama quem é forte e tem disposição. Pessoas que não são fortes, nem têm disposição deveriam andar com uma placa frente-e-verso (e com neon, de preferência) bem grande pendurada no pescoço.



"Tão bom morrer de amor e continuar vivendo." (Mário Quintana)