"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

I am not but I am

Minha foto
Rio de Janeiro, RJ, Brazil
essa metamorfose ambulante...

domingo, 26 de dezembro de 2010

Funciona?

É uma droga tremenda viver não gostando de ninguém, viver odiando as outras pessoas, é uma droga ninguém ser bom o suficiente, ninguém te cativar de verdade. É uma merda passar tantos anos, quase uma vida inteira, sem que uma única alma te encante pra sempre, sem que nada te faça amar de verdade, se apaixonar loucamente. É uma merda. Alguém me diz como é ter isso?
Na verdade isso já me aconteceu, mas não foi tão forte, ou sei lá, talvez eu tenha sido a culpada, não dando atenção, rebaixando, me lixando, faço muito disso. Sou dessas que quando tem o que quer de repente perde o interesse. Simplesmente perco o interesse e me sinto mal por isso acontecer, não costumo ter consciência se é ou não proposital, apenas perco o interesse e fico remoendo. É bem estranho. Que nem quando eu acordo normal, com o humor normal - digo, nem triste nem feliz -, mas do nada começo a querer ficar triste e passo o tempo me pondo pra baixo, dizendo e pensando coisas desagradáveis. É realmente estranho.
Eu queria mesmo que uma coisa dessas acontecesse num desses verões, ou num desses dias de inverno, tanto faz, só queria que uma coisa dessas acontecesse e eu me perdesse totalmente sentindo esse tanto de coisa bonita, que prende a gente e nos faz não pensar em mais nada, e tudo são flores e Amor. Eu realmente queria isso... Como deve ser olhar para alguém e sentir essa coisa tão grande e boa e sentir essa pequena e particular morte, como deve ser isso? Como deve ser sentir-se tão intimamente entrosado, tão dependente e não ao mesmo tempo, tão... Sei lá? Como deve ser olhar pra esse alguém e pensar claramente "estou mesmo na merda", mas não por amar essa pessoa, mas sim por amá-la tanto? Como é não gostar de verdade de ninguém a sua vida inteira e então amar tanto alguém? Como isso funciona? Funciona?


"É impressionante como eu não gosto de ninguém mas, de vez em quando, escapa um momento, um gesto, uma pessoa perdida e linda e única." (Tati Bernardi)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Então o que?

Vou driblar a letra de Natasha e fugir com dezoito, que tal? Não baby, não é nada disso, não é porque a vida sem você é uma merda fatal, não baby. Minha vulnerabilidade corrompe tudo o que tenho, preciso, preciso... Preciso de coisas difíceis, de coisas intangíveis, preciso de tudo, não me limito ao que tenho, quero mais, mais, mais, muito mais. É por isso que os relacionamentos acabam? Por não se contentarem com o que têm? Por quererem mais? Por cobrarem demais? O que é? Bom mesmo é viver de liberdade, baby, mas confesso que até isso enjoa, baby, baby, aquele dia em que você partiu deixou marcas, e não estou falando das concavidades que você deixou na porta principal, ao sair violentamente e jogar maliciosamente na minha direção aquela machadinha, que bom que tenho ótimos reflexos baby, senão... Então, deixou marcas, coitada da porta, coitada de mim. Ó, coitadas. Não tive coragem. Não baby, não tive, vão fazer dois meses que você partiu e somente hoje pela manhã troquei a porta por uma nova, e sem marcas, mas baby, não tive coragem de jogá-la fora, de amontoá-la na esquina junto ao lixo alheio. Merda, é uma merda, guardei a porra da porta dentro do meu quarto, do nosso quarto, e fico apreciando as marcas. Pelo menos as da porta são visíveis a olho nu.
Me desculpe pela minha fraqueza estúpida, baby, olhar para esta porta e rever tudo é muito... É. Por que nós não nos bastamos? O que nos faltou? Te cobrei demais? Você se expôs demais? O que foi que aconteceu?
Tudo isso é mesmo uma merda, não é? Eu te amo e você foi embora, se nem mesmo uma coisa dessas se sustenta, então o que?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta à Mafalda

Querida Mafalda.
 Meu bem, vê se te enxerga que tu não é cega, não quero saber da sua torpe existência. Para de me ligar, para de anunciar notícias sobre a sua vida para mim, cacete, não quero saber se tu emagreceu ou passou para as Forças Armadas, não quero saber se casou ou comprou uma bicicleta, nem se usou aquele leite em pó horrível pra fazer nescau, porque né, tu sabe que isso seria o fim-da-picada até mesmo para uma pessoa tão torpe como você, leite em pó não, isso não tolero. Você sabe. Leite em pó não serve pra nada, é horrível, tudo o que se tenta fazer envolvendo leite em pó sai ruim, bolo murcha, nescau fica aguado, tetas caem, crianças choram, o tempo vira, George W. Bush nasce, romances vão para o ralo, enfim, catástrofes acontecem. Por favor Mafalda, essa é a única notícia que quero saber de ti: usou a porra do leite em pó? Se a resposta for sim, mando atearem fogo à sua casa. Ou talvez eu mesma o faça, não há necessidade de envolver pobres inocentes nessa calamidade.
 Mafalda, sua estúpida, só me diga se usou o maldito leite em pó, é tudo o que desejo saber. Não me conte sobre seu gato, não quero saber o por que de ter ficado acordada até às 3 da matina, menos ainda se sua menstruação não desceu esse mês. Some, Mafalda, só some.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Outro clichê




   Não me esqueço de você, por mais que eu tente, por mais que o tempo passe, por mais que eu precise me desamarrar... Esqueço, esqueço mas imprevisivelmente me vens à cabeça. Hoje lembrei muito de você, não foi exatamente fácil, mas também não foi nada difícil. Lembrei de você e comecei a pensar em viajar, em sumir, virar poeira e me soprar pra longe daqui. Pensei em cumprir com uma coisa que te disse há uns 4 meses, pensei seriamente nisso, ainda estou pensando, seria a minha cara fazer uma coisa dessas mesmo sabendo que na volta para casa me estreparia pelo resto do ano.
   É uma sensação indescritível acordar e ter uma vontade súbita de fazer algo, e essa vontade se espalhar, tomar conta, e ser cumprida. Após acordar, você permanece deitado e fica calculando os prós e os contras dessa vontade louca, daí você pensa por um segundo, apenas por um segundo, “Ah, foda-se”, se levanta, pega as tuas coisas e sai de casa pra voltar somente quando a vontade estiver saciada. É realmente indescritível a sensação de desejo saciado.
   Dessa vez não acordei e senti essa vontade louca, estava estudando física lindamente, amo física, é uma das poucas coisas que amo mais do que a você, enfim, estava lá estudando, estava tocando “Ainda não passou” do Nando Reis, foi ela a culpada, me lembrei de você e dei uma remoída nas lembranças castanhas de nossas fingidas viuvezes. No meio dessa remoída lembrei daquela coisa que te disse em agosto sobre a hipótese de você ficar doida varrida e querer me esfregar pra fora da tua vida, você lembra? Enfim, pensei nisso e logo depois pensei em viajar, pensei em como seria bom voltar a fazer o que me dá na veneta sem explicar a ninguém, apenas fazer e depois arcar com as conseqüências, bons tempos. Pretendo voltar a esses tempos. Talvez. E pra abrir com chave de ouro, essa viagem seria sem dúvida a melhor escolha, mesmo que só dure um dia ou algumas horas.
   Depois de desejo fatiado e remendado, voltaria felizfelizfelizlizlizliz. Senão dezembro, senão janeiro, fevereiro. 

   Quem liga para o Carnaval?
   Escrevo clichês.









"Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!

Eu não suporto ver você sofrer
Não gosto de fazer ninguém querer riscar o seu passado
E o que passou, passou
E o que marcou, ficou
Se diferente eu fosse será que eu teria sido amado?
Por você, por você"
 
(Ainda não passou - Nando Reis)

domingo, 5 de dezembro de 2010

No cu delas



 


"A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar, sabe quando vai dar?"


Lindo, né? Eu digo que te amo, tu afirma que me ama e saímos de mãos dadas por aí. Lindíssimo, lindíssima cena de filme. O Amor é uma coisa maravilhosa, irmão, maravilhosa, até que te despedaça, até que te crava uma estaca pelas costas e te estraçalha forever, o Amor é mágico, mágico pra caralho, te destrói em segundos. Amor? O que é o Amor?
Eu te digo, te amo meu amor, te amo muito, e tu rebate dizendo que me ama também, que me ama muuuuito, muito, muito, que é pra sempre. Pra sempre!? As pessoas dizem que é pra sempre, eterno, forever. No cu delas. No cu apertado delas! Amor é o caralho. Pra sempre, no cu de quem diz, Amor não é assim, sai daí, bando de animal. Porra.
Lindo. Tão lindo que não suporto todo esse sentimento cheio de si, tão cheio, mas tão cheio, mas não para de crescer e absorve, absorve, e te engole pra dentro dele, e tu se perde numa coisa maravilhosa, mas não dura, não é pra durar. Já começa com fim premeditado. E você sai disso tudo arrebentado, esfolado, com fraturas expostas, você sai horrível, cuspido, triturado. Quando você sai.
Cara, Amor é uma coisa muito complexa, muito intensa. É coisa sensorial demais pra mim, me arrebento sempre, sem exceção. Amor é uma auto-destruição aclamada. Todo mundo quer amar e ser amado, coisa sem igual, essa tortura coletiva. Pra que amar? Pra que pedir para ser iludido? Pra que se desgastar com essa merda moribunda? Pra que pedir pra tomar no cu? Amar não é vida. Meu chapa, o Amor não existe, e no cu delas que é pra sempre, no cu apertado e preto e sem pregas de quem diz que é pra sempre, porque, oras, pra sempre é nunca mais.


"Em movimento, andando por aí, perdendo ou ganhando, levando porrada, tentando amar."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Minha poltrona

Oi, lembra de mim? Estava contigo quando comecei a deixar-me sair de dentro de mim, do meu profundo fundofundofundo como se estivesse afogada há eternos segundos de longos milênios. Você lembra? Tava sempre comigo, sempre me seguindo, me acompanhando e questionando tudo, nunca me deixava sozinha ou cabisbaixa. Onde você tá, cara? Me liga, me manda uma mensagem, um scrap, um e-mail, ou um tweet mesmo. Se comunica comigo, vamos nos conectar mais uma vez mais, me diz como tem andado, com que pernas, com que pensamentos. Lembra daquela lagoa? Lembra de quando íamos para lá e nos divertíamos à beça? E daquela noite sob as estrelas, aquela única, em que acampamos todos juntos numa mesma barraca?
Nunca te esqueci, não me dói, mas gostaria que você lembrasse mais de mim, você foi um bom amigo-amante, quase sempre constantemente quieto e calado, mas um bom amigo-amante.
Melhor que não lembre de mim àquela época mesmo, eu era tão imbecil, tão nova e idiota. E você... Ah, você era você, nós fomos nós, não me arrependo de nada, nem da vergonha ou da humilhação. Agora já passou. Agora você é homem formado e mora tão longe e truncado que nem sei como chegar, agora você continua você, sempre você, e eu continuo me definindo e redefinindo a cada instante, sempre nessa marca registrada de discordância e confusão, sempre eu, eu, eu.
Aliás, não sei o por quê de o assunto ter ido parar em você, cara, não tem nada a ver contigo, nada a ver com os nossos passados terem-se cruzado inexplicavelmente naquele fim-de-Brasil.

Agora sim.
Cara, você invadiu a minha vida assim sem mais nem menos, sem pedir nem nada, você simplesmente arrombou a porta da minha vida com o teu trator ultramoderno e se instalou na sala de estar, na minha poltrona favorita, e se recusou veemente a sair. Sério, você é mesmo muito insistente e circunspecta. Ou dá ou desce, simples assim, ou prefere que eu desenhe para seu melhor entendimento? Cara, você arrombou a porra da minha porta e se apossou da minha porra de poltrona favorita. O que você quer com isso?
Sério, você chegou de mansinho, bem como quem diz não querer nada, aí começou essa invasão, agora tu não sai mais, vai ficar e se hospedar até quando? Já sabe que por aqui ninguém costuma durar por mais de três meses, quando duram três meses.
Cara, gosto muito de você, muito, não me pergunta, só aceita. Mas deixa eu sentar na minha poltrona, ainda sou eu que mando nessa porra.
Obrigada, querida, você é muito gentil.


"E as rosas ficaram desapontadas.

— Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem eu pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa." (O Pequeno Príncipe)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alba del Rojo

Alba del Rojo era infalível na arte de adivinhar e esbarrar em colunas d'água, ela jamais sentia temor ao descobrir segredos escondidos sob tapetes e sofás. Acordava sentindo-se tonta e com dores na cabeça e coluna. Alba era de estatura mediana e corpo delgado, olhos de cigana traiçoeira, pele macia e cabelo arroxeado, desde pequenina com altas inclinações para os mistérios de Pandora e alucinações taciturnas.
Alba, mulher madura e letrada, independente e ávida. Aos 26, pariu mais bela criatura, Abella Rojo Delasarmenta. Alba, mulher sensual e incorruptível.
Aqui estou, desolada do mundo, assistindo a vultos convulsos, tempestades rotineiras e à vida inexorável. Aqui estou, montada na mortandade intemporal e na irreal e nefanda estrutura de solidariedade e Amor. Sou egoísta e vôo alto com os pés fincados, sou egoísta e durmo profundo de olhos abertos, sou egoísta e me permito sonhar com amores cansáveis e aventureiros, livres de delimitação e nobres orgasmos esquálidos, fingidos e dolorosos.
Eu sou minha única mulher. Me tatuo a marca do tempo.








Eu quero mesmo é alguém que me faça mudar completamente de opinião. Que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão. (Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Do que você tem desistido ultimamente?

Ultimamente, tenho aberto mão da minha vida, sabe, de sair, viver, descobrir, sorrir, sentir. Tenho vivido tão para dentro, mas tão para dentro, que, sinceramente, não lembro como é viver para fora. Apenas sinto saudade de coisas que não foram, coisas que sonhei, que aspirei com força, que moldei com Amor e carinho, sinto falta da ausência que não foi, que não será jamais.
Ultimamente, venho sentindo esse cheiro velho, esse cheiro costumeiro de lembrança engavetada, de cabelo que foi preso molhado, de dia seguinte que não chega. Sinto esse cheiro de lembrança esquecida e jogada fora, que está me abandonando aos pouquinhos, que está se desacomodando de mim. Sai cheiro, sai de mim, me deixa pra trás, me deixa pra frente, sai de mim cheiro inerente.

Antes eu pensava que não seria possível uma coisa dessas vazar, mas aconteceu, talvez fosse feito de poeira, tapar com a peneira não deu certo, os raios fugiram, a fumaça subiu, os sinais sumiram. Nós sumimos um para o outro, deixamos, de quando em vez, uns vestígios de passagem aqui e lá, nada mais que uns vestígios muito mal feitos e derramados. Éramos tolos.
Agora eu penso o mesmo de antes, não é possível uma coisa dessas vazar, se vazou, é porque não era uma dessas coisas. Só isso... Há sempre a Tequila no final de cada estação. Na falta de Tequila há sempre a Natasha, ótima substituta nestas horas sem fôlego de vida.

Ultimamente, continuo vivendo para dentro, um pra dentro mais externo e igualmente turbulento e agitado. Ultimamente, ah, ultimamente é olhar com as mãos e sentir o aroma com a boca, ultimamente são tato e manha, fadiga e medo.
Ultimamente é momento único, etéreo e banal. Agora deveria ser hora de alguma coisa.

No momento tenho jogado fora um bocado de chances desejadas, no momento estou sendo o outro pouco que sou, quê quis você? Você me quis que eu bem sei, você me quer que eu tô sabendo, e nem adianta fazer aquelas caras e bocas de desdém, nós sabemos que tu me quer.
 Engraçado mesmo é que você não vem buscar o que é teu. Ficar chupando dedo deve ser mais cômodo.
Já disse que admiro atitude? Levanta desse banco e diz na minha cara, tá mais do que na hora, ficar esperando não é atitude que se preze.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Meus, só meus.

A gente ri, a gente chora, segunda-feira a vida externa-padrão reinicia-se. A luz da memória apaga e acende, apaga e acende, as portas do armário abrem e fecham, abrem e fecham.
 A boca dela também abre e fecha, abre e fecha, e eu fico olhando, só olhando.

É que ela é tão intocável que me retém distante e perto, só olho e ouço, às vezes invisto... Mas tudo a longas distrações, longos espaços, tudo ocularmente insensível, informal e ponto. Mas só ocularmente. É que ela é intocável e ninguém é bom o suficiente, na verdade, nem eu. Menos ainda eu.

Olha só o que se passa, crio os meus problemas mesmo quando eles são improváveis, não vivo sem eles, meus problemas, meus, meus, meus, todos meus. Veja bem, estava tudo quase ótimo, aí eu resolvi mudar o curso das coisas, só isso! Adivinha no que deu? Merda. Cor de merda, textura de merda, cheiro de merda, forma de merda, merda pura, puríssima.

E se tudo regressar, já pensou nisso? Serão mais X horas de Z dias, de Y semanas, por N meses. Parabéns, você é a melhor, grandessíssima fazedora-de-merdas!
A boca vai abrir e fechar, ficarei apenas observando e ouvindo, pensativa, maquinando, medindo os prós e os contras, sensacional essa habilidade inata do ser humano, adoro muito tudo isso.
Pensando bem, ela não é tão intocável assim, talvez queira ser, mas não é, muito pelo contrário.

Ainda falta bastante para que tais segundas-feiras recomecem. Amém? Não.



"Será idiota recitar Vinícius de Moraes: 'que seja infinito enquanto dure'. A despedida não é lugar para poesia." (Fabrício Carpinejar - O Amor no Colo)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Franquezas

Estranheza é necessário e fraquezas não são motivo para escárnio. Te falo francamente: não sei dar continuidade. Não sei, nem nunca soube.

Sabe esse sentimento perigoso de desacato e vigarice? Me atacam. Me transformam. Não me pergunte como consigo me olhar no espelho todos os dias. Tento, tento enxergar uma coisa que não é, que está lá no fundo, presa. Todas as manhãs é essa mesma ladainha, olho, procuro, não acho, tento de novo, não resulta em nada, "tente novamente mais tarde, volte sempre".

Estupidez é necessário, demência e sonsice. Sensatez, malícia e manha também.
Outro empecilho: algumas, para não dizer tantas, pessoas têm imã ou dedo podre, que seja. Tem que ver isso daí, problema sério.
Fraquezas todo mundo tem, a diferença mesmo está em como cada um lida com as suas, mas como proceder com quem não lida? Como vou proceder? Fraquezas, para que vos quero... ?


A carne é fraca, a carne é fraca, a mente sabota, o coração transborda. A carne é fraca e fraudulenta.
Fraquezas e franquezas trocaram alianças?
Adoro esse sentimento corrosivo de desacato e vigarice. Preciso urgentemente domá-los.







"Liberdade na vida é ter um Amor para se prender." (Fabrício Carpinejar)

domingo, 21 de novembro de 2010

Vai, criança.

Porque nem sempre a lufada é boa,
porque nem sempre a surpresa é bem vinda,
porque nem sempre sabemos lidar com o que desejamos ou temos.

De dia e de noite, solidão a dois também mata, mas não te perturbes, caso não tenha sido dessa vez, poderá ser numa outra, vai depender da sua vontade. Na verdade, esperar somente por flores e cores soltas é um erro. Mas se isso te agrada, faça-o então, só não diga mais tarde que não avisei.

Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas, sei que passam várias porcarias, idiotices, putarias, preocupações, enfim, coisas e mais coisas, e aí? E se você não tem um ou uns relacionamentos felizes e satisfatórios, vai ficar cismado? Não sei o que se passa na mente dessas bilhões de pessoas. São bilhões de pessoas. Bilhões.

Porque não há fantasma que dure para sempre, nem chuva que jamais deixe de chover,
porque viver também é recordar.

E se você não se deixa subir, alcançar, cair e se estatelar, se reerguer e superar, então faça um grande favor para o mundo, se mata.
"Recordar é viver" não significa que deva se tornar um museu de coisas perdidas e insuperáveis, nem um mausoléu de rancores, apenas aprenda a se conformar e seguir em frente.

Viver também é ignorar para superar, se for preciso.
Viver não é uma coisa bela sempre, só quase.
Vai viver.
Vai subir, alcançar, cair e se estatelar, se reeguer e superar.
Vai viver, criança, para de perturbar.


sábado, 20 de novembro de 2010

Eftdpejgjdboep...

Fv tfj, fv tbcjb rvf wpd^f ob~p qpefsjb tfs bttjn ub~p mfseb! Qsjodjqbmnfouf efqpjt efttb v´munb ufsçb, ob~p qsfdjtfj pmibs qbsb p tfv tfncmbouf, op fybup jotubouf ujwf rvbtf dfsufab.
B wjeb f´ nftnp Cfmb! Nvjup Cfmb, Cfmj´ttjnb!

Preciso dizer, de concreto, nem as paredes da minha casa. Mas...



"And it's driving me mad
It's all over, all over, all over my face"
(I Want The One I Can't Have - The Smiths)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A rede

Deitado na grama fria, olhou perdido para o céu e respirou fundo, absorvendo cada sensação, cada esperança, e pensou em como era bom sentir-se assim, independente e satisfeito consigo mesmo. Dormiu e sonhou sonhos gulosos e intangíveis, cheios de mistérios e fantasias carnais, sonhou sonhos sonhados por homens solitários e comuns, de vida rotineira e sonhos intragáveis.
Ela estava balançando a si mesma em sua velha rede remendada, balançava e balançava, a brisa acariciava-lhe o rosto e sentia-se viva e capaz de tudo. Podia sentir o começo, podia ouvir, podia, podia... E não parava de embalar a si mesma na velha rede remendada. Balançava e balançava, como se estivesse balançando sua própria vida, balança, balança, calmamente, empurrão por empurrão, brisa por brisa, sonho por sonho...
Deitado na grama fria, ele sonhou com uma moça que se balançava numa velha rede remendada e esta, ao adormecer, sonhava com um cara que estava deitado numa grama fria e olhava perdido para o céu, absorvendo suas impressões e este, sonhava sonhos ininterruptos e intragáveis.
Gostaria de ter aquele homem para si. E embalá-lo consigo, em sua velha rede remendada.



"Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo."
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eu borboleta

Sou uma novela mexicana. Sou uma novela mexicana bem explícita e fui tirada do ar por conteúdo inadequado, violência demais, palavreado chulo demais, nudez demais, mutilação demais. Tudo demais, minha novelinha mexicana tosca é excessiva, mostra demais, diz demais, exala demais. E agora foi tirada do ar, irônico, não? É tudo o que pedem e é tirada do ar, cortada, censurada num golpe só.
Mas que novela é essa de uma personagem só, né? Ridícula, não tem estória, não tem trama, não tem nada. Mas sou novela mexicana, daquelas bem bregas e dramáticas ao extremo. Nasci novela mexicana e morrerei novela mexicana.

Sou praticamente um "Canavial de não-paixões".

Proibíram a mim, novela mexicana, de praticar a quem quisesse, todas as ínfimas ações - e transgressões -, de que tenho posse. Como sempre não dou lucro algum aos meus produtores. Mas enfim.
Só me resta reeditar todo o roteiro e seguir em frente... Isso dá medo e é doloroso, aquelas personagens tão gêmeas, tão completas... É, tá, tchau pra elas. O novo roteiro implica mudanças drásticas, foda-se, mesmo assim manterei o palavreado chulo, é minha marca maior, talvez não a única, mas é a mais perceptível... O palavreado chulo, a falta de pudor, a sacanagem explícita citada e feita - epa -, a liberdade de expressão, os abandonos sem explicação, a raiva endemoniada, enraizada além dos poros, o chororô e a tristeza desmedidos, o raciocínio primeiro inapto, a frieza descomunal, a total falta de confiança e segurança. São tantas as marcas...

Contudo, de novela mexicana incorporo em borboleta. E o que há de tão surpreendente e magnífico em ser borboleta além de me metamorfosear? Voar pra bem longe, para onde não possam me ver? Não ter ninguém? Ser "livre"? Livre de que? O meu passado me persegue, o meu eu não me deixa em paz. Mas se borboletas não têm parceiras, então talvez eu seja mesmo uma borboleta. E talvez um dia eu realmente suma, voe para bem longe, bem longe, e não dê mais notícias, e nunca reproduza, e nunca seja feliz, essas coisas de borboleta amaldiçoada... Mas ainda não sei o que há de tão esplendorosamente sensacional em ser borboleta, até agora só me deu desgosto e mais insegurança.

É muito estranho a maneira como certas coisas tão pequenas me atingem de forma tão grande. E é aí que me deixo rolar... Nunca vou esquecer dessa conversa.


"Há muitas razões para duvidar e uma só para crer."
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Momentos "nostalgia"

    Sinto falta de quando eu era criança, de quando estava triste e minha mãe me ninava enquanto eu chorava, fazia "shhh shhh" no meu ouvido e me dizia "vai ficar tudo bem", e mesmo que não ficasse - que fosse, eu jamais acreditava que fosse ficar -, eu podia continuar chorando até pegar no sono sem sentir culpa por isso. Hoje, ainda posso chorar, chorar, chorar muito por todos os meus problemas e decepções, mas não faz sentido, não vai adiantar chorar por todas as insatisfações e não haveria como fazê-lo sem sentir culpa, a não ser quando é noite, vou dormir e não é mais possível controlar, aí não há culpa que cale, apenas alívio...
    Mas não sou mais criança, não posso mais chorar por tudo e ter alguém fazendo "shh shh" no meu ouvido sem sentir vergonha.
    A vida é barro seco e minhas lágrimas são de pedra.










 O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

domingo, 17 de outubro de 2010

Instants

Depois de tudo o que passamos, de todos os nossos planos, de todas as nossas aventuras, acaba assim. Você não me abraça mais ao dormirmos, deita-se silenciosamente, meio afastada e virada para o outro lado. Parece que não estou mais aqui. Dia após dia, noite após noite, semana após semana, durante quinze anos fomos felizes e inseparáveis, mas agora, logo agora, que perdi meu seio, que perdi um pedaço carnal de mim mesma, você resolve arrancar de mim minha segurança, minha estabilidade... E se eu não quisesse que isso se destruísse? Não conta? Depois de todos esses anos... Parece que não estou mais aqui e que você não quer que algum dia eu já tenha estado, não me olhas mais, e quando o faz, não há doçura, nem paixão ou alegria em ver-me, é tão frio e abominável.
Desejo que o lugar para onde está indo seja melhor do que este, desejo que você se realize e que nunca se esqueça de mim, de nós. Não pense que sou cruel por isso. Sou pior, muito pior do que isso. Desejo que você jamais esqueça o quanto uns dias fomos as criaturas mais felizes que poderiam existir e que você estragou tudo com o seu egoísmo, com o seu orgulho infinito e com o seu escárnio desmedido. Desejo com a força de mil sóis que você viva, viva muito e muito bem, que tenha saúde o suficiente para ver todos os seus amores desfalecendo, morrendo, apodrecendo e se perdendo na memória do tempo.
E no último dia de vida, quando estiverdes arfando a última brisa, lembrará de todo o seu mal, de toda a sua insignificância, e já será tarde para tudo. Sozinha e infeliz. Que pena.
Depois de todas as cópulas, de toda a vivência... Nada valeu a pena, nada foi frutífero, nada sucedeu em coisa alguma. Nenhuma forma de amor é válida.



"O cruel vinha de que o silêncio também seria inábil e farposo,
contudo educado, então feria, e não pense que vou esclarecer
quem, facilitando a cegueira, pressa ou tontura: O cruel era a
palavra verbalizada, e o verbo era o mal? Mas o silêncio idem..."
(Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nisso tudo

Sabe? À medida que o vento ultrapassa a locomotiva do tempo, perde-se o imperdível e vislumbra-se o nada, o vazio, o vácuo tocável. Segundo consta na memória, há algo não consumado nisso tudo.

— Nisso tudo?

— Tudo?

— É, tudo o quê?

— Tudo, nada. Não importa.

— Nada? É universal?

— Não sei ainda, para mim é tudo igual...

— Me abraça.

— Te abraço.






De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
(Poética - Vinícius de Moraes)

sábado, 18 de setembro de 2010

Segredos de liquidificador

Eu ouviria seus suspiros sentiria suas batidas seu corpo veria seus olhos e veria sua felicidade sentiria seu Amor me tocando com pressão você obteria tudo de mim nós ficaríamos paradas andando falando em silêncio caminhando na luz da noite e sentindo o prazer do silêncio que diz tudo sem tremer onda sonóra alguma e ouviríamos nossos silêncios amorosos e singulares até o amanhecer entardecer anoitecer começo e recomeço então eu te abraçaria e beijaria tanto tanto tanto que ficaria sem fôlego mas não pararia jamais jamais te diria segredos de liquidificador e sairia sem dizer nada sem avisar sem celular e voltaria tarde tarde da noite ou no dia seguinte pra te deixar louca louca de saudade de medo de desespero de mim não te deixaria sair pela porta nem pela janela sem voltar para sempre nunca mais não te deixaria por nada.
Você ouviria meus sussurros e cantaria minhas tristezas infantis e gritaria minhas tolices você não-sei-o-quê não-sei-o-que-lá não se cansaria da minha cara de quem comeu e não gostou diria para vermos a chuva cair desenhando sólidos de revolução no vidro da janela da sala do quarto no espelho do banheiro me mostraria suas incertezas inevitáveis depois correria de mim de você mas voltaria não faz isso de não voltar porque se for preciso durmo ou não durmo de janelas e portas abertas só pra você entrar me abraçar beijar Amar chorar e superar quando você voltasse em uma duas ou três infinitas noites turbulentas eu estaria louca louca louca de saudade de medo de desespero de você seria minha minha só minha toda minha cada parte sua.





"Eu quero me chamar Mar você dizia e ria e ríamos porque era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e você dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos você não vai muito além desses príncipes pequenos."
(Caio Fernando Abreu)

domingo, 12 de setembro de 2010

Km

Não gosto desse tédio progressivo, nem dessa rotina evitável. Mas estamos aí. Não tenho mais ideias, não tenho mais palavras prontas, e quanto mais forço essa barreira imaginária, mais perco o que não tenho mais.

Meus dentes doem e a noite não tem fim. Quero correr, correr pra bem longe e sumir. Cadê as minhas forças para isso? Meus dentes doem, minhas pernas doem, minha cabeça dói, tudo dói. As paredes rangem, desmoronam, não tenho mais teto, não tenho mais chão. Nada.
Ah, porra, não tenho nada que seja material... É, isso. Minhas ideias evaporaram e minhas palavras prontas também. Amém. Vou viver de outra coisa, rodar bolsinha na esquina, vender bala no sinal, que se foda, na verdade, estou pensando em abrir um puteiro bem chique e cultivar uma plantação de maconha, estou feita. Mas se nada disso der certo viro hippie mesmo. Que seja, a vida é pra se viver, seja como for.

Porra, alguma merda na minha vida tem de dar certo e vai dar. Vai dar. Meus dentes ainda doem, desgraçados. Ando cansada, cansada da minha cara no espelho, cansada dessa casa, cansada do meu espírito cansado. Caralho. Caralho, quero viver, viver. Respirar, ver, abraçar, chorar feliz, rir, sonhar, concretizar, sorrir, andar, sentir, sentir, sentir.
Meu calendário está todo rabiscado, os dias que sobram pertencem ao outro ano. Meu relógio pifou, parece que não suportou toda essa carga. Mas meus dentes continuam doendo.
E esses quilômetros também, ah esses quilômetros, eles continuam entre nós.




"Talvez isso mude. Talvez você entre na minha vida sem tocar a campainha e me seqüestre de uma vez. Talvez você pule esses três ou quatro muros que nos separam e segure a minha mão, assim, ofegante, pra nunca mais soltar. Talvez você ainda possa pular no rio e me salvar."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Beijar

    Tenho que te dizer e te digo agora e não antes e nem posteriormente, estas palavras soltas e agitadas que te jogo num passe só. Pense rápido. É que digo agora, preciso fazê-lo já, apenas já. É que sinto imensurável diferença entre "pegar" - ou ficar, que seja - e beijar. Deixe-me explicar, vejo "pegar" como algo tão público e tão desimportante, mas beijar vejo como sendo o oposto, um ato tão bonito e íntimo, tão calmo e prazeroso... tão... Puro, completo por si. Penso assim, porém, não desde sempre, sinto-me até mal quando me vem o pensamento de ficar com fulana ou beltrana, sabe?... Expôr ainda mais algo meu, tão particular, distribuir assim. Compartilhar essa minha intimidade com mais uma qualquer? Pra quê?
    Beijo é divino, as pessoas deveriam mesmo considerá-lo sagrado.
    Eu considero, e se não começa com um beijo bom, mas bom mesmo, já era. Não vou fazer a menor questão de tentar uma segunda vez, nem que essa pessoa seja putamente linda e maravilhosa e o meu sonho de consumo mais enlouquecedor em carne e cores, foda-se. Dispenso logo. Essa é uma das raras decepções que verdadeiramente me abala de cara para nunca mais; que sempre me atinge fortemente a cara, quebrando todos os dentes das minhas expectativas, e  a boca do estômago da minha afeição.





"Beijo é o 'fósforo aceso na palha seca do amor'."

"Eu sou apenas um beijo da boca do luxo na boca do lixo."
(Cazuza)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Saudades e silêncios

    Ontem, tarde da noite, fiz uma coisa por você, e ignoro a precipitação desse ato. Descartei de vez quase um ano de sonhos e planejamentos, é duro lidar com memórias jamais materializadas, na verdade, só pensar brevemente no que poderia vir a ser e agora de fato não o será, me dói feito uma úlcera incurável.


"Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante." (Carlos Drummond de Andrade)

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!” (Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)

"Não existe morte pior que o fim da esperança." (King Arthur)




    Mas é meio insincero dizer que o fiz somente por você, fiz por mim também, minha vida ia se moldando àquilo e esvaia-se por meio de uma tela e de planejamentos incansáveis. Enfim. Digo-lhe, também, que não posso competir com esses órgãos aparentes e que me são distintos. Um arquegônio é um arquegônio e um anterídio é um anterídio. É como comparar as vantagens de se ter um gato e as vantagens de se ter uma geladeira, não tem absolutamente nada a ver, são coisas totalmente diferentes.
    Me contenho nessas umas horas mergulhadas em silêncios esparçados e nada diminutos de quando em vez, com maior frequência do que eu desejaria. Esses silêncios são tão infinitos quanto nossas menores e mais importantes falas.

 
 
"Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."
(Fernando Pessoa)

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."
(Martha Medeiros)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Por obséquio.

Mas ainda bem que a senhorita é demasiado racional, desta forma não me fora preciso, como eu havia pensado, arreganhar todas as minhas portas e janelas, revelando tanto por tão pouco, por um motivo desmotivado e excepcionalmente externo, tosco e imprudente...  Poderia ser uma ótima atitude, ou um terrível infortúnio. Todavia, penso que não cabe a mim julgar, nem a qualquer outro indivíduo, não excetuando a ti.
Apenas transmito por intermédio deste, que há certas cores que devem continuar contidas... Ou talvez não devam ser diretamente condicionadas.
Mas estas portas e estas janelas... Peço-lhe apenas que não as arranque abruptamente. Nem tudo se é reparável, incluindo estas minhas portas e janelas, e essas belíssimas cores que todas conservam. Por obséquio, não as desperdice aos olhos alheios.





"Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável."
(Franz Kafka)

domingo, 22 de agosto de 2010

The black rose came back

Dilacerou-se inutilmente, dilacerou-se por coisas medíocres, por pessoas sem importância. E que tem o agora? Encontramo-nos no século XXI, mas que diferença faz? Século de transições, nada vai acontecer de intenso, nada. Nada que se faça irá servir de mérito, nem de tendência. Dilacerar-se inutilmente é o que se pode fazer desligando-se do resto do mundo, mas dilacerar-se por si só, sem motivos exteriores. Nada vai mudar nada para direção nenhuma. Estamos no XXI, mas somos do XX.
Viver de emoções? Viver de Amor, de sentimentos que se apagam? Viver de outrem? É tão imaterial, inconcreto, incerto... Como se fiar disso?
Nada vai mudar nada nesse século oco. Tudo o que tinha para acontecer e ser inventado, já foi? Então é isso, acabou? Não sobrou nada? Que desfavorecido.
Aceita-se qualquer coisa, até guerras civis, ou uma nuclear, só pra agitar um pouquinho as coisas, anda tudo tão chato e tedioso. Como Alvares de Azevedo se permitiu reencarnar nesse século seco?
Para que, então, continuar escrevendo esse monte de excremento, se não vai dar em lugar nenhum? Não vai mudar nada, não vai fazer diferença, então foda-se. Para que insistir num poço? No fim, há duas possibilidades, 1) Água e escuridão, ou boia até morrer, e sem enxergar nada, ou afogar-se-á de uma vez, 2) Sem água e ainda assim escuro, caiu, bateu, morreu. Não quero insistir num poço.
E depois, qualquer dessas linhas são ruins, ou nasce com esse dom, ou morre vivendo do dos outros.



"Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
"Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
"Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
"Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro 'me acho, me agacho, fico ali'.
"Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
"Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.

"Se pudesse, hoje, varria, isso mesmo, varria as pessoas todas com vassoura, como se fossem ciscos.
(Clarice Lispector)

sábado, 14 de agosto de 2010

A vida

No início tudo deve acontecer lentamente, meio a meio... Certas coisas devem despencar do céu, ficamos olhando para cima, à espera de que algo volte a surpreender-nos.
Bem sabe-se o quanto o tempo se arrasta das 5 às 12, e o quanto ele se apressa das 12 às 13.
A vida é tão curta e frágil, dá medo de tudo, de ficar e ir, de ir e voltar, de falar e permanecer calado, de abrir e fechar os olhos, de apagar e acender as luzes do céu e do quarto, de sentir e não sentir, de sorrir e não sorrir, de olhar naqueles olhos e continuar ou desviar.
A vida é pedaço de vento dentro de balão d'água.





"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

"Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata..."
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Estranho e frio e gostoso.

Não sei o que dizer. Não sei se por não saber, mas também pode ser que seja pela dúvida, pela possibilidade de que dizer algo talvez faça com que esse encanto se quebre, se desfaça feito algodão-doce.
Estranho. Hoje senti um frio na boca do estômago capaz de paralisar quaisquer movimentos, e paralisou. Ele desceu desde a altura do coração. Muito estranho. Mas não foi ruim, só estranho. Coisas estranhas acontecem.


Ou talvez seja apenas estas batidas desenfreadas.







"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar." (Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 8 de agosto de 2010

Bem que minha mãe disse

Plena manhã de sábado, dia 7 de agosto, 5:45, é, acordei cedo... Bendita aula, na verdade eu nem ia dar as caras por lá, mas tinha um assunto para tratar. Ou tentar. Enfim, adoro São Cristóvão...
Blablablá, blablablá.
Cheguei em casa, tomei banho, pus um shortinho e um blusão do meu time de futebol, deitei de bruços na cama para estudar. Não muito depois, liguei o computador e acessei a internet. Legal, uma delas estava online. Me chamou para irmos à uma festa. Ok. Eu só teria de estar em casa às 21h. É, cedo assim. A festa era na Pavuna... Ou quase.
Eram 15:32 e lá estava eu, Realengo, bem no bloco e sem a menor ideia de qual era o número do apartamento. Adoro. Subi. A criatura-mãe estava morta, dormindo na cama. O pai atendeu a porta. Oba.
A criatura-filha ainda estava se arrumando, puta que pariu. Esperei, esperei e esperei. Saímos, pra lá de 16h. Encontramos com outra criatura, depois com mais duas, faltava uma. A última das criaturas apareceu lá pelas 17:45, eu já estava puta ao extremo, afinal, teria de estar em casa às 21h e já eram quase 18h, nós ainda iríamos para a caralha da Pavuna, aonde quer que fosse. Mas pra animar a viagem, que deveria durar meia hora, havia cantores no ônibus, como cantavam bem... Nós e os demais passageiros nem quisemos nos matar, ou matá-los. Aquela era, definitivamente, a meia hora mais demorada da minha vida... Pois é, meia hora, né, 19:14 chegamos por lá, sei lá onde era, atravessamos a pé uma feira maldita, que favela. Paramos em frente à uma igreja, o celular da praga da aniversariante estava desligado, ok, depois ela ligou e nos indicou que fôssemos de táxi. Chegamos, finalmente, amém irmãos. Subimos, mais burocracia. Subimos mais, que merda! Que festa merda! Puta merda! Só gente linda, olha só, as caras do capeta. Enfim, banheiro. Uma puta fila, ok. Vinte minutos em pé, trinta milhões de pessoas e uma porra de um banheiro com um único vaso sanitário, PUTA QUE PARIU!
Descemos para ir embora, 20h, cadê a besta-anta da aniversariante? Cadê o dinheiro do táxi? CARAAALHO. Chegou a critura, pegamos a prata. Descobrimos que nenhum táxi faria viagem com seis passageiros, ótimo. Tomamos um ônibus, sacolejava tão delicadamente que só senti meu útero deslocando dentro do meu corpo, er, e poderiamos perfeitamente bem ter perdido nossas línguas... É. Soltamos, andamos, andamos mais, ok, chegamos no ponto de onde havíamos soltado, aquele da feira... O ônibus demoraria um pouco para sair. O menino perguntou que horas eram, surtei novamente "O QUE!? 20:53!? MINHA MÃE VAI COMER MEU CU!". O ônibus enfim saiu, surtei de novo.
Lá fomos nós... Aliás, a festa era depois de Pavuna, em São Jõao do Meriti. Nessa "volta para minha terra", nada peregrinada, IMAGINA, passamos por lugares lindos e maravilhosos, realmente estonteantes: Anchieta, Mariópolis, Albuquerque, passamos perto de Nilópolis... Ou seja, a treva, podem juntar Realengo, Caxias e São Gonçalo, Pavuna vence sem esforços e sem ajuda.
Porra, pisamos novamente em terra firme às 21:59, eu tinha de estar em casa que horas mesmo? Ah sim, 21h, né? É. Pegamos uma van. Soltamos, 22:14, andamos até minha casa, um vento gelado de doer os dentes e espantar a alma. Mãos dadas, risos. Chegamos. Um copo d'água.
Fui levar a criatura-filha ao portão, um beijo, dois beijos, três beijos. Er.

Para quem pretendia passar o sábado estudando tranquilamente, até que teve uma tarde-noite BEM movimentada. É, sábadão, talvez eu vá para São Gonçalo no próximo, sabe como é, né? Sair um pouco dessa rotina... Pisar em ruas não-asfaltadas, que aventura...
Bem que minha mãe disse. Pavuna é um pedacinho do céu. Claro, e eu sou hétero. É, minha mãe disse que Pavuna é horrível e etc e tal, pelo menos pude ver com os próprios olhos, sensacional, quero morar lá...

Só serviu para morrer de/fazer saudades.







"Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas você tá vivo, e essa vida é pra se mostrar. Esse é o meu espetáculo. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho."
(Cazuza)

PS.: Não sou ariana, mas foda-se, faço mesmo.




quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ciranda


São ambas similares
feições e olhares

Mais uma vez
deixo-me-faço-me entrar numa dessas
Confusões à três

Entre ambas me reparto
Isso dói fundo feit'um parto

Lá vamos nós,
com nossas tolas paixões,
Embarcar nesse barquinho truculento
de um-pouco-nem-tanto-ingênuas emoções

Rodemos nessa ciranda de sentimentos.
Rodemos nessa ciranda
de manda e desmanda,
de gosta e desgosta,
de ama e desama.
De ama e reama.




"There are too many questions
There is not one solution
There is no resurrection
There is so much confusion

And the love profusion
You make me feel
You make me know
And the love vibration
You make me feel
You make it shine

There are too many options
There is no consolation
I have lost my illusions
What I want is an explanation

And the love profusion
You make me feel
You make me know
And the love direction
You make me feel
You make me shine
You make me feel
You make me shine
You make me feel

I got you under my skin (4x)

There is no comprehension
There is real isolation
There is so much destruction
What I want is a celebration
And I know I can feel bad
When I get in a bad mood
And the world can look so sad
Only you make me feel good

I got you under my skin (4x)

I got you under my skin (4x)

And the love profusion
You make me feel
You make me know
And the love intention
You make me feel
You make me shine
You make me feel
You make me shine
You make me feel

I got you under my skin (8x)

And I know I can feel bad
When I get in a bad mood
And the world can look so sad
Only you make me feel good"
(Love Profusion - Madonna)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Talvez-quem-sabe-um-tanto


   Te contar, a parte de trás do meu biquíni é meio pequena, ok, é muito pequena, ela é tão mínima que fico constrangida quando vou à praia. É sério, ainda fico constrangida... Aquela lá que você vê, toda descontraída e falando palavrão, mera casualidade... É só uma de minhas mil faces. Aquela sou eu tentando agir com naturalidade; e só nessa tentativa, meio bem-sucedida, já perco toda a naturalidade. Não que essa descrição límpida e talvez-quem-sabe-um-tanto equivocada de mim esteja errada, só estou dizendo que ao mesmo tempo em que sou hiperativa e falante, deixando fluir palavrões e outras coisas mais aos montes, também sou quietinha, assim mesmo, 80% totalmente na minha; quieta, calada, observadora.
   Que bom... Ao fim da tarde, dentre tantas coisas, ela ainda diz "I miss your ginger hair".





"Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias."

domingo, 1 de agosto de 2010

WTF, baby...

É verdade.
E vem o aperto
e a falta de ar
e aquele desespero interno, parece que se afoga,
o rosto paralisa triste e as lágrimas querem rolar, mas nenhuma cai.
Só piora.
O coração vai parando de bater,
como se estivessem lhe tirando a própria vida, assim, sem mais nem menos e não se pode fazer porra nenhuma,
e sem querer as coisas vão se perdendo...

Yeah,
what the fuck are you doing?

Queria que as águas da chuva lavassem toda essa sujeira que não é minha,
mas que está entranhada em minha pele, por toda a extensão do meu corpo,
e na sua também.

Yeah,
what the fuck are you doing?






"Agora pensei outro pensamento de gente grande. É assim: vezenquando, uma coisa só começa mesmo a existir quando você também começa a prestar atenção na existência dela. Quando a gente começa a gostar duma pessoa, é bem assim"

"Porque fé, quando não se tem, se inventa"
(Caio Fernando Abreu)


sábado, 31 de julho de 2010

Verdades de mentira

O que adianta pensar em mim e criar verdades, ou fazer de mentiras, verdades, se não fala comigo? Já pensou que amanhã podemos não estar mais aqui? E que o tempo que tem comigo você não passa de maneira proveitosa? É, também não exerço muito bem o meu cargo imaginário. Do que estou falando então? Cargo imaginário, né, por dois motivos, 1) de fato não ocupo cargo nenhum, 2) nada passa desse plano, é imaginário, delusório... Talvez haja mais motivos, e daí? E se houver mais, diferença não faz, dá no mesmo, você fica imaginando e eu também, e nada passa disso.
Mas andei pensando muito, de verdade, e ela não foi inventada e nem transformada em si, andei pensando demais no "daqui pra frente, o que será de nós..", ou algo parecido, e não cheguei a lugar algum de primeira, mas de segunda me fluíram algumas coisas, nem todas otimistas, vieram dúvidas e outras coisas que me tiram a calma, mas vieram outras coisas também, mas também não penso que são otimistas. Senão todas, necessitam de esforço e compromisso... E "aquilo" mesmo cheio de outras coisas sentidas, não se basta com elas, é preciso mais, muito mais.
Mas e daí, nada disso importa para mim. Nada me afeta ou enobrece, nada me inquieta ou desentristece. A vida me deturpa. Sou solteira. Sim, porque há uma diferença gigantesca entre "ser" e "estar", ser é imutável, estar é mutável, adquire-se e perde-se. Sou solteira, nasci assim, vivo assim, morrerei assim. E nada impede, eu não me impeço, eu me impeço. Não me impeço de ser até o fim e me impeço de deixar que me impeçam. Mas sou passível de mudanças sempre, não confio em mim por isso, posso estar certíssima de algo e depois vou me provar estar certíssima de outra coisa, é a minha vida, é, tão incerta quanto posso definir, tão errante quanto quem a vive, ou não...
Essas verdades mal-contadas, transformadas e camufladas, elas acabam com essa pessoa que sou, ou que estou sendo, pode ser momentâneo, não tenho certeza, mas se tivesse, não faria diferença, nada dura pra sempre. A não ser que queiramos, mas isso também é muito duvidoso.
Que droga é não poder tomar uma decisão sem pensar na outra parte, olha a burocracia surgindo, tenho de pensar e repensar e pensar de novo, depois tenho de pesar e pesar novamente e pensar ainda mais... Melhor ainda, é a outra parte supercolaborar sendo superindiferente, isso me alegra tanto! Ou se é ou se está. Malditos joguinhos e orgulhos. Não é tudo, também dão um alô o menosprezo e a hipocrisia, sabe. São coisas sensacionais que eu adoro. Sem ironia... Adoro de verdade, mesmo que essa seja camuflada.
Foda-se, é tudo uma merda.





"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."


"E quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode, porque está tentando adequar/ajustar um arquétipo, uma imagem de toda a nossa infinita carência, nossa assustadora sede, a uma realidadezinha infinitamente inferior."
(Caio Fernando Abreu)


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Vomitar


Cicrano, meu amigo querido, morreste tão cedo, não pensaste em mim? Coitado de mim... Como pôde? Éramos tu e eu, eu e tu, apenas nós quatro. Cicrano, meu amigo querido, confiei tanto em ti, como pôdes descartar minha confiança por pão e banana?
Cicrano era nada mais que um cão, meu cão, querido e único cão. E agora... Bem, agora nada mais é que sabe-se lá o que, nada nessa vida se cria ou se perde, tudo se transforma, né? Não sei no que Cicrano se transformou, nem a confiança que lho havia depositado... Talvez ela tenha se tranformado em ódio ou rancor, quem sabe em tristeza, talvez em saudade, mas não sei.
São cousas que me desatinam. Não aprendi a lidar com essas cousas, não aprendi, e agora não tenho por quê aprender. Por esses dias conheci alguém, essa pessoa tem me feito ver por outras perspectivas toda essa bosta inútil, mas ainda há cousas que não me deixo ler, paro meu olhar no título e não me permito destravá-los de lá, não sei, simplesmente não me permito não sei se por vergonha, receio, ou medo, simplesmente não me permito. E não me arrependo... Sinceramente, cheguei a me permitir certas vezes, mas não me agradaram.
E fico nessa, de aprendo, me arrependo e vomito.
Quero vomitar tudo em tudo o que não me faz bem, feliz ou segura.



"Hoje existir me dói feito uma bofetada."

terça-feira, 27 de julho de 2010

Passados e presentes e futuros


Tem essas coisas que me acontecem cheias de loucura, outras cheias de ódio, e ainda outras mais, cheias de paixão, vá lá. Tem gente que me diz pra não viver de olho no futuro, mesmo que seja próximo, e gastar o presente, vivê-lo em todas as direções. Tem gente me falando um monte de coisa e isso me enche as ideias. Parem.
Se eu quiser esperar alguma coisa, alguma atitude, alguém, algum sentimento, novidade... Caramba, se eu quiser, vou esperar lindamente e acabô, cambada. É... Belezinha. Aí quando deixo de lado todas essas vozes externas que estão tentando pôr minhas decições em atrito, me vêm pessoas e declarações, como se não ter nada disso em consciência já não fosse suficientemente difícil. Ê laiá, só me põem em meio de carnaval. E quando não põem, meto-me sem dó.
Meu bem, de tudo rola, passados que só sabem ressuscitar, futuros que se arrastam pra entrar em prática, presentes que têm presa em acontecer, tudo rola, tudo, tudo, tudo. E pensar que minha vida é entediante, só em pensamentos, aliás, nem isso.
Não quero mais essas vozes. Não queria antes, menos ainda agora. Deixem que penso por mim.
É loucura, foda-se, mas é minha.




"E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."
(Tomara - Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Alguém. Ela. Você.

   É indubitável que quero alguém, mas não "alguém" qualquer um, tanto faz, não, não como se eu fosse me entregar de corpo, mente e alma para a primeira merda que me viesse a aparecer, e sim alguém em específico, de nome bonito, RG, CPF, título de eleitor e os caralhos.
   Essa maneira tão foda-se de ser para tudo, me abriu uma fenda... Por aqui, é, bem aqui... Não, mais pra esquerda. Não, para a minha esquerda... É, agora sim. Essa fenda... Funda e preta, abriu e está finalmente cicatrizando. Nem consigo crer, demorou tanto tempo, mas tenho de acreditar, tenho de acreditar... Tenho e acredito. É.
   Essa fenda maldita sugou tantas coisas, parece um buraco negro, tal sugação imparável, suga e suga, chupa e chupa... Deplorável. Fenda maldita. Mas como disse, ela está cicatrizando agora, desde uns meses para cá. Não aguento mais esperar por ela. Na verdade aguento sim, dizer isso é para expressar a emergência que sinto dela, tão grande e sufocadora. Mas eu aguento, sou forte...
   Espero que essa minha capa não se rasgue, não se esfacele...
   É, quero essa pessoa de que preciso tanto. Ela sabe que preciso, ela sabe que é ela. Ela sabe. Mas ainda lhe devo uma placa. Prometo não fazer promessa de que darei a placa quando for possível, promessas jamais me disseram nada, nada além de mentiras, elas não me supreendem mais desde muitos anos. Enfim. Quero pedir uma coisa, mas me parece meio abusivo, não que seja algo sumamente íntimo, não, não é isso não, mas é que... Sei lá, sou estranha, é, mas ela também sabe disso. Quero pedir "espere por mim", mas me parece um abuso. Soa como um.
   Desculpe, só que eu sinto esse tantão de coisas e, com certa frequência que não conto, me batem esses desesperos gritantes "e se...", "mas...", fico desesperadíssima. Me prego peças o tempo todo, vivo me sabotando, ah, mas você também já sabe disso, você e ela.



"[...] minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti.
Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara."

"Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa."

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A casa

Na minha casa há paredes... Paredes que jamais foram acimentadas, onde batia vento, caia tijolo. Não que os tijolos tenham desistido do suicídio... E não que eles não o tenham feito, todavia... Abandonei o que chamava de "minha casa" por uns tempos e voltei à vida de nômade de antes, jogando-me ferozmente estradas adentro e buscando um sentido definitivo para as incertezas inseguras que atavam-se deliberadamente ao caos de minha vida delinquente e desabençoada.
Voltei à casa vinte e tantos anos mais tarde, podre de rodado e bêbado de solidão. Ser nômade é foda. Ter coração nômade, é foda pra caralho. A casa que antes eu chamava de "minha casa"... Era puro tijolos. Espalhados e espatifados. Em vinte anos muita coisa deve ter ela passado, enxurradas, ventanias, arrombos, etc. Aliás, todas as amarguras que ela supostamente enfrentou, não são diferentes das que passei e das que fiz com que passassem, tirando de estranhos e conhecidos de vista, coisas que não me pertenciam. Tirei mesmo, e daí? Fodi com muita gente, e entenda essa merda como quiser.
A casa não parecia o que um dia foi "minha casa". Transtornado e puto, dei meia-volta e fui embora. Se para sempre, talvez, mas pra sempre é uma expressão muito forte, seria como dizer "e até que a morte os separe", ou "você é a única".
Minha casa nunca foi verdadeiramente minha. Nem meus erros... Nem nada, nem ninguém.

"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."
(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Preto no Branco IV

Acordou... Não passava d'um sonho ruim, mesmo assim tomou nota daquilo em sua mente. Continuou sentada na cama, sem mexer um fio de cabelo, estava apavorada, tudo fora tão real, como pudera acabar tão rápido? Formulou dezenas e dezenas de hipóteses sobre o que aquele sonho poderia significar, mas nada parecia se encaixar. Faltava algo crucial para seu certo entendimento.


- Manoli? Manoli? - Seu cachorro jamais se demorava quando ela o chamava, por que agora? Liesel levantou-se de súbito e foi procurá-lo. Saiu do quarto aos pulos, calçando seu chinelinho, todas as luzes estavam apagadas. Sim, aquilo era muito estranho. Liesel pôde sentir seu coração acelerar gradativamente, enquanto andava na penumbra à procura de seu cão. Sentia-se estranha não só por todo o ocorrido não ter passado de um sonho e por estar faltando algo importantíssimo para entendê-lo, mas por estar numa casa... Na sua própria casa e ainda assim parecer ser a de um estranho. Sentiu um ardor corroer-lhe por dentro completamente.


Repentinamente as luzes se acenderam. Deparou-se frente à uma coroa de cabelos castanhos e logo apagou novamente.

E o tempo não parou.
O tempo nunca para.