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domingo, 20 de setembro de 2009

Preto no Branco II

Liesel sentia-se condenada a olhar aqueles rostos sem vida, encovados. Aquilo não era nada do que ela imaginara que teria por seu caminho de vida. Assombrada pelos membros dos corpos de seus pais que estavam espalhados pelo chão do quarto, Liesel afastou-se do ponto onde estava, andando devagar, até que sentiu estar recostada numa das paredes. Desmoronou. Deixou-se escorregar, sua coragem estava esvaindo-se. Chorou, soluçou. Parou, enxugou as lágrimas pendentes em suas bochechas pálidas. Pôs-se de joelhos no chão que parecia a cada minuto ainda mais duro e poeirento, e foi engatinhando até o lavabo anexado ao quarto. Era um lindo, sofisticado e espaçoso lavabo. Liesel amava a banheira que estava a sua direita, logo após entrar pela portinhola do lavabo, era de fato uma lindíssima banheira em estilo vitoriano. Mas, mais que a banheira, Liesel amava como se tivesse vida, sua penteadeira, ela era de um roxo contundente, e seus acabamentos eram liláses. Por sobre sua penteadeira de "estimação", havia um elefantinho azul feito de porcelana, com a metade de sua minúscula tromba quebrada, aquele fora o único presente de que ainda a ajudava lembrar da mãe biológica, a frágil e adorável Eleannor Strezer. Por fim, sem saber qual atitude tomar, Liesel pegou, com sua mãozinha trêmula, o pequenino elefantinho azul e o afagou. Adormeceu.

Ao primeiro raio de sol, Liesel já estava alerta, de pé. Ainda não tinha coragem suficiente para voltar ao quarto e deixar que seus olhos pousassem nas partes tombadas dos corpos de seus pais adotivos. Inspirou fundo, fechou os olhos e caminhou para fora do lavabo, e depois, para fora do quarto. Percebeu que já poderia abrir os olhos sem qualquer risco aparente, quando pisou num carpete macio, era bem melhor que o piso frio de seu quarto. Ao abrir lentamente seus olhos amadores e analizadores, Liesel apenas pôde sentir alívio. Alívio por finalmente ter saído de dentro daquele antro de discordia e traição. Ela já pensava no porque de seus pais terem sido feitos em picadinho, e em quem teria concluído tal atrocidade. Apesar de seus conservadores 11 anos de idade, ela não era boba, e já montava em sua mente uma breve simulação do que e do porque tudo aquilo havia acontecido.

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