"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca." (Clarice Lispector)
"Eu me recuso a ser sócio de qualquer clube que me aceite como sócio." (Grouxo Marx)
"Repara bem no que não digo." (Leminski)
"Meu epitáfio será: Nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa" (Rita Lee)

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essa metamorfose ambulante...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Misto de gauche e licença poética

  Quando fecho os olhos sinto como se estivesse bêbada. Como é sair de si, flutuar pra fora do próprio corpo, ficar suspensa como que perdida no ar contemplando a si mesma meio viva, meio morta, estirada no tapete colorido com os pés nus tocando o piso frio de tábua corrida? Ser hippie parece tão cool. Eu não aconteci em Woodstock... Nem você. Mas "você", que eu quero dizer, sou eu, minha mente, meus pensamentos um tanto embaraçados feito os meus fios de cabelo.
  E você, o que você quer? A festa acabou, você acabou, o dia raiou, a noite findou. "Ou". Por que sou tão in? Preciso ser out, completamente out. Quero outs. Também quero sins. Não estou dando uma de Caio, imagina... Quero paz e quero guerra. Mas não quero qualquer paz, tampouco qualquer guerra. Quero a paz de espírito dos hippies dos anos 60 - a que eu suponho que tivessem, visto que é a sensação que me passam -, quero a guerra dos loucos. Eu sou louca. Indiscretamente assumo minha loucura sã. Discretamente tento controlá-la, mas só às vezes, bem às vezes, quase nunca. Não pretendo obter êxito quanto à essa proeza, de qualquer modo. Pra que controlar minhas loucuras se posso devanear milênios sob seus efeitos translúcidos, magníficos, magnânimos, mágicos, monstruosos, sediciosos... "osos"? Isso tudo é tão in. Eu sou in. Eu sou in e minha loucura não cabe em mim. Minha loucura necessita expandir-se, vazar para além de mim e contagiar.
  Dormir sem calcinha é ato digno. Pelada, mais ainda. Digno também é viver o hoje sem ficar cuspindo no passado e tentando adivinhar a cara do futuro. Eu não rascunho os meus dias. Eu engulo o papier-mâché. Não gosto de liquid paper. Saudável mesmo é viver cometendo erros proveitosos. Saudável é escutar sandices enquanto a brisa do mar beija o rosto. Não queria isso, mas pensei em shimbalaiê por um instante... "Você não me ensinou a te esquecer", Caetano me entenderia. Freud, não.
  Me adivinho no compasso dos segundos, nas clareiras do tempo zero, me adivinho no som que emudece a rotina cantilena. Diria que também "te" adivinho, mas estou devaneando comigo mesma... Queria dias mais longos, tristezas mais curtas, pores-do-sol em comprimidos. Queria amor enlatado. Papel rabiscado, fracasso esmagado. Rimas sofisticadas. Não faço sentido.
  Me sussurram mordidas e ecôo Júpiter. Madrugadas voluptuosas ou ingênuas, tanto faz. José é in, assim como eu. "E agora, José?". Sei que não quero terminar como José, seja José de Carlos, seja José de ninguém como se fosse João, mas que na verdade não é, e sim apenas outro pobre diabo esquecido. Lembrei: eu não termino. Sou infindável... Dinheiro na mão é vendaval, pois bem, eu também.
  É me definindo no indiscutível que vou me recompondo ao zero grau de libra em itálico. Se eu fosse um país... Mas isso jamais me ocorreu. Se eu fosse um poema... Mas posso ser tantos que não cabe a mim delimitar... Ou cabe? Sei que sou poesia de cego... Não importa, não "posso ser" tantos poemas, pois "sou", de fato sou, em negrito e sublinhado, tantos poemas quantos forem possíveis de se imaginar. Eu sou o ópio, o ópio do povo. Mentira. Marx, futebol e catolicismo já ocupam esse espaço toptoptop de linha no pódio dos vencedores que não vencem nunca porra nenhuma. A verdade é que eu não caibo em mim.
  Mas continuo caminhando por aí - caminhando, sim, porque vagando daria outros ares, que não indizíveis, porém, errôneos -, me perdendo nas tolices de todos-os-dias... Amém. Continuo por aí, errando obras-primas, cagando cheiroso, desconstruindo rimas, tomando banho de sol, de lua, de mar, até de neblina, pensando breguices, distribuindo patadas, presenteando com flores porque pessoas também morrem, vale lembrar. E continuo por aí, atuando em palcos improvisados por sobre areia. E caminho contra o vento, nada no bolso ou nas mãos... Se tenho amores vãos? Tive. Tive um. Mas já disse que não se deve viver cuspindo no passado, portanto, viremos a página. Tem outra coisa, também vivo amando. Não é a mando do capeta, apesar de vez e outra parecer, é um vivo amando do tipo amando sempre, sempre amando, é um amando ora apaixonado, ora embrutecido... É um Amor dos loucos e chafurdados na merda lodaçal das inseguranças infrutíferas, mas e daí, é Amor, e antes o Amor dos loucos e desvairados que dos fracos e oprimidos, dos medíocres bastardos sem perspectivas delirantes, que das criaturas agourentas e hediondas que nunca, jamais, em hipótese alguma suspiraram Saturno - ou suspiram. Tenho dito. E comprovado. Sério, com selo do INMETRO e tudo. Mas enfim, amando e vivendo. Amando e amando... Aliás, há amando e a-mandos.
  Risos, risos, beijo, beijo.






"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida." (Carlos Drummond de Andrade - Poema de Sete Faces - Antologia Poética)

"- Como é que você sabe?
[...]
- Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
- Eu não sei nada.
- Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
- Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
- Ninguém compreende.
- Às vezes sim. Eu te ensino.
- Difícil, [...]" (Caio Fernando Abreu - O dia que Júpiter encontrou Saturno - Morangos Mofados)

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